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sábado, 12 de junho de 2010

Re-Enactment Cut Piece - por Vanessa Reis






“ O trabalho do artista de performance é basicamente um trabalho humanista, visando libertar o homem de suas amarras condicionantes, e a arte, dos lugares comuns impostos pelo sistema.”

(Cohen, Renato, Performance como Linguagem - Ed: Perspectiva)


Foi a partir disso que me mobilizei para fazer o re-enactment de Cut Piece. Erroneamente, a princípio, fui por um viés muito simplório, achando que a performer Yoko Ono quando realizou, em 1964, Cut Piece pela primeira vez, estava apenas testando a passividade dela enquanto performer. Ao longo desses meses de aula, fui engatinhando no meu entendimento sobre a arte performática. Com o texto introdutório de Regina Melim “Performance Nas Artes Visuais” um trecho me chamou a atenção: “ a noção de espaço de performação, traduzido como aquele que insere o espectador na obra-proposição, possibilitando a criação de uma estrutura relacional ou comunicacional. Ou seja, o espaço de ação do espectador ampliando a noção de performance como um procedimento que se prolonga também no participador.” Ao ler esse trecho, e conectando à performance de Yoko, pude ver essa participação do espectador. Então, fiz minha escolha: queria testar nos dias atuais como isso se daria; qual seria minha passividade diante das pessoas + uma tesoura + o mundo hoje? Por dentro eu era só interrogações. Como seria lidar pela primeira vez com o aqui e agora da performance? E, além disso, tinha o fator imprevisibilidade. Optei por fazê-la conjuntamente com mais três colegas que também fariam a mesma reconstituição: Cláudio, Rany e Tatiane. A princípio escolhemos fazer dentro da universidade. Nossa apreensão era grande. E fazer essa experimentação dentro de um local já conhecido nos deu uma falsa segurança. Aí começavam meus equívocos: como procurar segurança em algo que não se sabe que rumo ou proporção pode tomar?! Tudo, simplesmente tudo, pode acontecer!!! No dia 3 de maio de 2010 (dia de nossa primeira experiência), lamentavelmente eu não tinha entendido isso com clareza. Sentados em bancos de plástico, um de frente para o outro, trajando roupas neutras e colocamos dois cartazes escritos “ Cut a Piece”. 1º equívoco: o certo da tradução seria CUT PIECE/pedaço cortado e não cut a piece/corte um pedaço. Dessa forma pareceu que a frase que em português significa “ pedaço cortado”, fosse como uma ordem “ corte um pedaço”. Não queríamos dar esse tom imperativo nos cartazes. Ok. Falha na hora de pensarmos os cartazes. Estávamos bem na passagem entre o prédio de Letras e Artes e o jardim. Ocupamos o centro do corredor. Na sala defronte a nós acontecia uma aula de dança. Pelo som era ballet clássico. Olhando meus demais colegas, pensei em voz alta: “Quanta solenidade!” e num misto de nervosismo e vontade de quebrar aquele clima estabelecido, comecei a conversar com eles. Ria... E eis meu 2º equívoco: não permanecer calada e concentrada. Deveria me manter concentrada como quando eu medito. Estando ali, presente, de olhos abertos e em silêncio. Falei muito. Senti-me no direito, inclusive. de trocar palavras com os espectadores. O auge de meu falatório foi mencionar diversas vezes: “estou chegando no meu limite”. Essa frase reverberou nos ouvidos dos espectadores-participantes, estimulando-os ainda mais a cortar. No decorrer dessa experiência, pude constatar a efetiva ação dos participantes. Nem liam o cartaz e se apossavam da tesoura e “cric-cric”. Éramos três mulheres e um homem. Ele foi o primeiro a ser cortado. Observei que muitos mal se perguntavam o motivo daquela performance. Simplesmente cortavam. Uns para sacanear o coleguinha que faz teatro e performance, numa tentativa cruel de banalizar e em certo ponto até desrespeitar o caminho de investigação e da descoberta artística. Minhas lágrimas rolaram quando me cortaram a primeira mecha de cabelo. Foi um pequeno tufo, mas que pra mim incomodou profundamente. Me perguntava : “Cadê os artistas? Cadê os pensadores de arte?” Tantas idéias para surgir e partia-se logo para o lugar comum: mulher-cabelo-cortar. E eu lá... soltando inconscientemente a frase do limite, tascando lenha na fogueira, estimulando os “cortadores/torturadores de plantão. O auge da tortura psicológica comigo foi quando uma mulher chegou bem perto e disse: “vou cortar sua orelha” e eu, suando frio de medo, testando o meu limite...Até que cric! Ela cortou uma outra mecha do cabelo, bem próximo a orelha. Aquilo me doeu fisicamente. Mas queria ver até onde eu iria e onde o público chegaria. Aos poucos foi se formando uma espécie de ‘platéia’. Algumas pessoas paravam e assistiam. Ficaram minutos e minutos por ali, enquanto meu colega Cláudio era despido numa curiosidade quase sexual. Rany também era ‘torturada’ com ameaças de corte em seu cabelo, que mais tarde se concretizou. Tiraram boa parte de seu rabo de cavalo. Fui a primeira a me retirar da performance. O último corte foi no meu top. Bem na frente. Eu já estava de calças recortadas. Quase semi-nua. Por achar que meu propósito definitivamente não era ficar nua para ver a reação dos outros, optei por encerrar minha participação ali. Confesso que me vi um pouco perdida diante do resultado dessa primeira experimentação. Outras aulas vieram, até que Tania nos indicou o documentário “US. X John Lennon”. Se o tivesse assistido antes dessa primeira experiência, me atentaria para o fato de que Yoko NÃO estava com uma questão egoísta de meramente se testar enquanto performer. Assistir ao filme me deu uma outra dimensão do que é performar. Bateu uma sensação de total equívoco, pois só então entendi que Yoko Ono estava, na época, fazendo uma ação humanitária. Tinha todo um porquê político na escolha de Cut Piece. Lendo outros textos da matéria de ATAT, minha mente foi se abrindo cada vez mais para a verdadeira questão de performar. O texto “Estética Relacional” de Nicolas Bourriaud foi imprescindível para que eu percebesse a ligação da arte com a sociedade, com novas maneiras de ver o “sujeito”, outros caminhos para o homem se relacionar. Ele diz: “O interstício é um espaço de relações humanas que, mesmo inserido de maneira mais ou menos aberta e harmoniosa no sistema global, sugere outras possibilidades de troca além das vigentes nesse sistema.” Cita ainda: “a arte produz uma socialidade específica...a arte contemporânea realmente desenvolve um projeto político quando se empenha em investir e problematizar a esfera das relações.” E quando Yoko sentou-se, em 1964, com uma tesoura, ela queria problematizar as relações; mais especificamente estava ali para por em questão a guerra do Vietnã. Ao refazer em 2001 a questão já se modificou. Era o 11 de Setembro. Interessante após 40 anos ela refazer. Tive minha segunda experiência já com uma nova noção: a de que não iria “reperformar” somente para me testar. Quando penso nisso hoje, sinto até vergonha de ter reduzido o papel da performance a isso. Escolhí reconstituir para mostrar o quanto as pessoas estão apáticas perante a violência. Refazer Cut Piece é um pedaço do tempo que RE-cortei. A passividade existe? Sim. Através do sentimento anestesiado da sociedade atual. Em comparação à 64 o que mudou? Muitas coisas. O receptor mudou. Pensamentos sobre diversos temas mudaram. Só uma coisa petrificou: a violência. Esta, aumentou exageradamente, e de diversas maneiras, em sentido bem amplo. A força que tem refazer Cut Piece hoje é mostrar que, se algo modificou, foi para pior. Uma violência gratuita quase animalesca muito presente no ser humano. A violência se manifesta como uma potência fortíssima, mostrando a crueldade do homem contemporâneo. Logo, ao reperformar Cut Piece percebo que alguns aspectos ainda não progrediram. Muito antagônico. Estamos em pleno séc.XXI, vive-se a Era tecnológica, o homem praticamente substituído por máquinas, mentes pensantes e... o quesito paz onde fica? A atitude da humanidade hoje é anestésica, numa surpreendente atitude “blasé”, através da quase invisibilidade, da ignorância consciente perante o que está acontecendo à sua volta, é que defino a minha segunda experiência. Dessa vez ainda feita em grupo: Flaviane, Tati e eu fomos para o IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais na UFRJ). Ficamos no pátio central, ao redor das salas de aula. Chegamos lá pela manhã, por volta das dez horas. Alguns poucos alunos por ali. O frio na barriga era ainda maior. E, pra minha surpresa, a reação das pessoas foi muito diferente! Não poderia imaginar que pudessem agir assim. Uns passavam e nem nos olhava. Outros olhavam rapidamente, sem dar importância. Três pessoas sentadas de preto no pátio de uma faculdade. Outros poucos olhavam... olhavam... Podiamos perceber a curiosidade percorrendo suas mentes. O máximo que faziam era perguntar para o Nilson, nosso amigo que fez os registros, o que estava acontecendo. Sofrí duas interferências: um rapaz cortou o pequeno cartaz (que dessa vez estava grafado corretamente), e um outro deu um “pic” na minha camiseta. Apenas um único estudante sentou-se diante de nós e tentou um diálogo. Dessa vez me mantive concentrada e calada. Ele nos avistou e foi se aproximando. Sorria, coçava o queixo...Até que puxou uma cadeira (havia mesas e cadeiras no pátio), e sentou-se. Perguntou-nos se aquilo era algum tipo de protesto religioso, alguma pesquisa sociológica...E ficou ali divagando sobre o que poderia ser. Finalmente agiu. Tinha uma garrafinha d’água ao meu lado, e ele bebeu um pouco. Ao beber tentou ainda alguma interação comigo. Tentou me provocar falando: “o que acontece se eu levar sua garrafa de água?” Depois sentou novamente e nos contou que o que fazíamos tinha alguma relação com as pessoas ‘invisíveis’. Certamente disse isso por ver que as demais pessoas passavam por nós e nem nos olhava. Comparou nosso “protesto silencioso” com a falta de educação de muitos ali que não cumprimentavam os funcionários da limpeza, os seguranças. E fez questão de dizer que ele era um dos raros que ainda cumprimentava. Como bem diz Bourriaud: “A arte é um estado de encontro fortuito”. Pude ver um modelo de socialidade presente tanto na UniRio quanto no IFCS. Lançando mão da arte, estabelecí relações bastante distintas em ambos os lugares. A intensa participação de alguns e o extremo desprezo de outros. Na primeira fiquei, ao final, de calcinha e top rasgado; na outra, apenas um corte em uma das mangas da camiseta. Enfim, a performance tem como material transformador a maneira de pensar o homem, a sociedade atual. No geral, foi uma experiência interessante, que me gerou inúmeras questões: o que fazer para despotencializar a violência no homem? Ou ainda: como lidar com ela e transformá-la em algo positivo? Tais questionamentos me dão mais e mais vontade de mergulhar nesse espaço relacional fascinante que é performar!

http//www.youtube.com/watch?v=xSS8UHWqHqE

Cortando em Miúdos




Cortando em Miúdos...

Quando me inscrevi para fazer a matéria ATAT, ministrada pela Professora Tânia Alice, no Curso de Artes Cênicas da UNIRIO, não tinha a menor idéia do que estava me aguardando. Por se tratar de uma matéria teórica, achava que iríamos ler alguns textos, alguns capítulos de uns livros e pra variar...mais alguns textos. Porém na primeira aula o meu mundo “caiu em pedaços”. Teríamos que associar uma parte prática à teórica. Fora proposto à turma que fizéssemos um reenactment, trocando em miúdos, eu teria que reconstituir uma performance histórica.

Primeiro rolou aquele frio na barriga.

Como assim fazer uma performance? Essa matéria não é TEÓRICA?
Não tinha a menor ideia do que iria fazer...Após algumas semanas de fuga, reflexão e sofrimento, adicionando mais uma dose de fuga, acabei me deparando, através do livro “Performance nas artes visuais”, da Regina Melim, com uma performance da Yoko Ono chamada Cut Piece, a princípio achei ela “inofensiva”. Sendo muito sincero, não fiz uma ponderação sócio – político – cultural – educativa do porque ter escolhido essa em questão, tinha que escolher uma, escolhi, simples assim. Me simpatizei e pronto. Quando minha busca parecia ter tido o fim, descobri que mais três companheiras de ATAT, também tinham, se interessado pela mesma performance. Daí pensei: “Aff, melou, muita concorrência, e nem vou ter chances de fazê-la, até porque sou homem e a original tinha sido feita por uma mulher!”

Antes que resolvêssemos nos tesourar para decidir quem iria fazer a Tânia sugeriu que os quatro fizessem a performance. Com um papo rápido com Rany, Tati e Vanessa (minhas companheiras nessa aventura) é que comecei a pensar na performance em si, no que a Yoko queria e comecei a me perguntar porque de fazer essa especificamente. Porque eu um homem ocidental estaria recriando uma performance que uma mulher oriental tinha concebido? Porque eu entre tantas possibilidades escolhi uma em que eu poderia até ficar pelado? Seria ingenuidade não prever os rumos que tal ato poderia resultar. As meninas preocupadas com o cabelo e eu com a exposição.
Yoko já havia realizado essa performance em três ocasiões. Em 1964 no Japão, repetindo a experiência em 1965 no Carnegie Hall e em setembro de 2003 no Paris’s Ranelagh Theatre, ambas em Nova York.

Em Tokyo, a performance Cut Piece fez com que Yoko Ono se tornasse notícia internacional. Tendo o Vietnã como leitmotiv, fio condutor, apresentou-se com um vestido longo, branco, no centro do palco de um teatro. Coube ao público cortar com uma tesoura o vestido, deixando Yoko nua. A alta sociedade de Tokyo ficou estarrecida. Como era de se esperar, condenou-a. Mas, o protesto de Yoko ganhou as páginas dos mais importantes jornais do mundo.
Trinta e nove anos depois em Nova York, segundo a BBC, Yoko teria dito que queria recriar a performance por causa das mudanças políticas ocorridas desde os ataques do dia 11 de setembro de 2001. Alguns jornais chegaram a publicar manchetes no estilo: “Performance de Yoko Ono poderá ter nudez 'pela paz mundial'.”

Em declaração feita no teatro, Yoko disse: “Força e intimidação estavam no ar. As pessoas ficaram sem voz. Cut Piece é a minha esperança pela paz mundial. Quando realizei esse trabalho pela primeira vez, em 1964, eu o fiz com turbulência e um pouco de raiva no meu coração. Dessa vez, eu o farei com amor que tenho por você, por mim e pelo mundo. Venha e corte um pedaço de minhas roupas, um pouco menor do que um cartão postal e envie para uma pessoa que você ama.” Duzentas pessoas compareceram. O vestido de Yoko era preto. O primeiro a cortar um pedaço do vestido foi Sean, filho de Yoko com John Lenon.

Na minha mente cada vez mais a contextualização se tornava distante, Japão, Mulher Oriental, Vietnã, 11 de Setembro, nada daquilo tinha a ver comigo nem com a Unirio, Rio de Janeiro, 2010...Na verdade, eu achava anteriormente, que a proposta de Yoko era mostrar a passividade do artista. Uma inversão de papéis, o artista no “Cut Piece” seria manipulado, estaria executando um papel de passividade no “jogo” com a sua “plateia”.

Preferi então enveredar por esse questionamento. Pegaria a “forma” pensada por Yoko e questionaria exatamente a inversão da forma convencional proposta pelo teatro/cinema/televisão, onde o espectador assiste passivamente o que o artista propõe. Brincar literalmente com os papéis e questionar Ativo/Emissor X Passivo/Receptor. Laura Lima já tinha se utilizado do conceito do “Cut Piece” em 2001, substituindo o corpo humano por uma cabra. O que ratificava a minha idéia de pegar a construção de uma performance e relocá-la em um outro conceito.
Senti que apesar da forma escolhida ser bem próxima , a descontextualização causada pelos deslocamentos de cultura, tempo, espaço, quantidade de performers acarretariam em uma observação e resultado bastante distintos da original.




PRIMEIRA MISSÃO




Reconstituição do Cut Piece na Unirio - Rio de Janeiro, 03 de Maio de 2010.
Horário: 14:45 às 15:50
Performers: Claudio Althiery, Rany Carneiro, Tatiane Santoro e Vanessa Reis





Era uma segunda feira, com um clima ameno, no horário onde há uma grande concentração de alunos no Centro de Letras e Artes da Universidade. Escolhemos um local de passagem, todos os alunos de Artes Cênicas e Música teriam que passar pelos quatro perfomers. Colocamos dois cartazes no chão com o dizeres: “Cut Piece” (Corte Um Pedaço). Optamos em ficar, formando um quadrado com cada componente sentado num pequeno banco em cada ponta voltados para dentro (dessa forma conseguíamos observar uns aos outros) e com um pote no meio desse quadrado contendo quatro tesouras.




Tão logo nos posicionamos formou-se um semi círculo em torno de nós. Fomos observados. Deixamos de ser alunos/pessoas e nos transformamos em objetos. Até por estarmos numa Academia de Artes, não havia um estranhamento, mas sim um reconhecimento ou simplesmente um descartamento. A participação do público foi bastante rica, alguns iam cortavam, outros tentavam criar uma obra de arte com nossos corpos e figurinos, uns atuavam sobre os quatro, outros apenas em um ou dois. Tinham os que pediam permissão, outros queriam nos ver pelados.




Depois que Vanessa e Tati chegaram ao fim em suas propostas, estabeleceu-se, por parte da platéia um jogo de competição. Chegaram até a propor um “bolão” para ver que iria se o último a resistir à pressão. Quem levaria a melhor Claudio (o representante masculino) ou Rany (a representante feminia)?




A partir desse estágio, começaram a interferir de uma forma mais “terrorista” para testar os nossos limites, tentando desnudar a mim e minha companheira assim como cortar o cabelo dela. O que fez que a proposta da performance se descaracterizasse e virasse um joguinho de sado masoquismo.




Havíamos pensado em fazer uma segunda fase no Calçadão de Copacabana, após a execução na Unirio. Vimos que a potencialidade da experiência performática era muito maior do que imaginávamos e preferimos abortar essa missão e realizá-la novamente em um outro ambiente fechado. Pois já que no “nosso seguro ambiente” algumas atitudes tinham sido propositadamente feitas para nos desafiar e testar os nossos limites, como seria isso no meio da rua?










SEGUNDA MISSÃO





Reconstituição do Cut Piece na Livraria da Travessa da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, no lançamento do Livro “Performance.Ensaio” de Tânia Alice em 19 de Maio de 2010.
Horário: 19:00 às 20:00.
Performers: Claudio Althiery e Rany Carneiro.




Dessa vez, apenas eu e Rany, sem cartazes e sem estarmos no “nosso ambiente”. Um homem e uma mulher, sentados um de frente pro outro no meio de livros, outros performers executando as suas partituras, taças de vinho e poesia.




O início foi muito semelhante ao da Unirio, a observação, as perguntas de algumas pessoas meio que pedindo permissão para interagir e a pronta participação do público que optou mais em criar figuras, obras de arte, customizar nossas vestimentas, até fazerem carinho, rezarem, comunharem com a experiência performática. Porém, novamente, quando a roupa já havia se transformado em um tapa sexo, o joguinho – sado masoquista de tentar desnudar-me para ver “meu limite”, se impôs. Fazendo que eu terminasse a performance por acreditar que ela havia se esvaziado e se transformado em uma outra questão.











O ATOR PERFORMER

DA PASSIVIDADE DO GESTUAL, PASSANDO PELA CRIAÇÃO E CAINDO NO SEXUAL

Existem algumas afirmações que na performance, é o artista que está presente, ele na sua essência e não como num espetáculo em que é o personagem que executa a ação dramática. Não sei se isso é tão fácil de se estabelecer. Afinal de contas temos um estágio de presença muito forte na performance. É verdade que não estava “atuando no papel de”, porém no caso do “nosso Cut Piece”, eu estava num estado de passividade, de serenidade quase budista, um estado que não é o meu no dia a dia...Sim, aquele era o meu corpo, mas é fato que naqueles momentos, eu não era eu. Não seria como se Claudio Althiery estivesse no papel de: O PERFORMER?
Na performance da Unirio ouvi de um aluno: “Vou testar a sua dignidade”. Com certeza, se fosse eu, teria revidado, respondido, teria tido uma atitude ativa e não passiva como a do “ARTISTA PERFORMER”. E o mais instigante era que a nossa passividade era encarada como desafiadora por parte do público que entrava numa “competição” para testar o nosso limite.
A potencialidade do outro como criador é enorme, apesar do jogo ser proposto por nós, são os outros que conduzem, que interpretam, que interagem por conta própria, de acordo com suas expectativas, desejos, cultura, bloqueios, traumas e limites.

Em termos de proposta, o Cut Piece, foi executado mais no sentido da forma. O diálogo com o original acabou se estabelecendo assim naturalmente, não se tratou de uma réplica e sim em algo legítimo. Se for analisado num caráter de crítica poderão até considerar que é uma profanação do original e que deterioramos a obra, mas não encaro assim, acredito na multiplicidade de opções e resultados que uma performance permite. Acredito inclusive que possamos pensar na aplicabilidade do Reenactment como forma de mapear o comportamento sócio-cultural-político de alguns grupos. Afinal mudam-se os emissores, os receptores, o contexto social-cultura-politico, a época. E uma infindável gama de variantes que é óbvio que interfere não só no processo quanto no resultado em si.

Essa dupla experiência vivida por mim e pela Rany é uma prova irrefutável de como cada performance é única. Estávamos os dois nos mesmo dias, nos mesmos locais, com os mesmos “públicos”, executando a mesma partitura (serenidade) e obtivemos resultados distintos, ações distintas...Por mais semelhante que tenha sido a nossa experiência, passamos por momentos distintos. Especialmente se encararmos do ponto de vista provocativo e sexual. Queriam provocá-la cortando o cabelo dela e a mim fazendo que a minha bunda ficasse a mostra. Enquanto eu estava mais coberto, as mulheres atuavam em mim, quanto mais desnudo eu ficava a participação masculina se intensificava, não havendo falsos pudores machistas em me tocar, em nitidamente me desnudar. Tal fato se repetiu nas duas ocasiões.

A noção de coisificação do performer, em Cut Pieces é muito forte, em determinados momentos o performer se transformou num objeto nas mãos dos “atores sociais” que participavam de forma ativa. Há uma expansão do conceito de “coisa” – Éramos “uma coisa” específica para um, para outros éramos “todas as coisas possíveis” especialmente quando criavam várias “coisas” com os nossos corpos e tinham os que nos olhavam e não nos enxergavam dando uma conotação que éramos “coisa nenhuma”. Em determinados momentos me senti como um dos bonecos de Kantor, desprovido de alma, sendo só matéria.

A conexão com o espaço foi muito semelhante nos dois momentos. Era apenas um espaço. Não havia um incomodo, dispersão ou tensão. A disposição dos participantes que estavam próximos uns dos outros permitia identificação imediata quando os outros performers estavam sendo “desafiados”. Ocasionando um “sentimento” de agente, vouyer e objeto. Éramos matéria, mas também assistíamos uma “coisa” igual a nós ser manipulada, tocada, provocada...

Fato que por estarmos no Brasil/Rio de Janeiro, a presença da sexualidade é algo muito presente. Havia uma “tensão”, sempre quando a performance avançava, quanto menos pedaços haviam para serem cortados, a questão da sexualidade aumentava. O desnudamento era algo que mexia claramente com as pessoas. Só essa questão já distanciava de uma forma enorme da proposta inicial e da proposta de 2003 de Yoko Ono. O resultado que obtivemos com a nossa experiência sem sombra de dúvidas passou
bem distante do concebido originalmente.

Sinto como se a nossa "recriação" fosse um "West Side Story" que pega a fórmula de "Romeu e Julieta" e transforma em uma outra história. Não partimos de um zero, mas recriamos o original em uma outra coisa também original.
Não gosto muito do termo "Reconstituição" para definir o que fizemos, porque reconstruir pra mim é executar de forma o mais semelhante possível algo que já foi constituído, o que não foi o nosso caso, nem tinha a pretensão.



Essas recriações do “Cut Piece”, me despertaram alguns questionamentos sobre:
1- A postura do artista
2- A coisificação do artista
3- A sexualidade sempre ligada ao corpo do artista
4- A duplicidade de fazer essa performance com um outro artista, me transformando em coisa e observador (do outro).
5- A possibilidade de fazer um mapeamento do público.


Gostaria de desenvolver esse ato performático por mais algumas vezes para investigar melhor essas questões.


quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cut Piece












Imagens do Original feito por Yoko Ono, um vídeo de um reenactment que ela fez em 2003 e fotos do reenactment feito por Claudio Althiery, Rany Carneiro, Tatiane Santoro e Vanessa Reis em 2010 na UniRio.