Blog da disciplina de ATAT (Análise de Temas e Autores Teatrais), ministrada pela Profa. Dra. Tania Alice na UNIRIO: um território de atravessamentos e densidades novas e de reconfiguraçoes temporais e espaciais. Um espaço de criação e não de produção. Temas investigados: Re-enactment: (re)produção ou criação? Nomadismo e mobilidade da e na arte contemporânea? E agora, arte contemporânea e felicidade.
Quando me inscrevi para fazer a matéria ATAT, ministrada pela Professora Tânia Alice, no Curso de Artes Cênicas da UNIRIO, não tinha a menor idéia do que estava me aguardando. Por se tratar de uma matéria teórica, achava que iríamos ler alguns textos, alguns capítulos de uns livros e pra variar...mais alguns textos. Porém na primeira aula o meu mundo “caiu em pedaços”. Teríamos que associar uma parte prática à teórica. Fora proposto à turma que fizéssemos um reenactment, trocando em miúdos, eu teria que reconstituir uma performance histórica.
Primeiro rolou aquele frio na barriga.
Como assim fazer uma performance? Essa matéria não é TEÓRICA? Não tinha a menor ideia do que iria fazer...Após algumas semanas de fuga, reflexão e sofrimento, adicionando mais uma dose de fuga, acabei me deparando, através do livro “Performance nas artes visuais”, da Regina Melim, com uma performance da Yoko Ono chamada Cut Piece, a princípio achei ela “inofensiva”. Sendo muito sincero, não fiz uma ponderação sócio – político – cultural – educativa do porque ter escolhido essa em questão, tinha que escolher uma, escolhi, simples assim. Me simpatizei e pronto. Quando minha busca parecia ter tido o fim, descobri que mais três companheiras de ATAT, também tinham, se interessado pela mesma performance. Daí pensei: “Aff, melou, muita concorrência, e nem vou ter chances de fazê-la, até porque sou homem e a original tinha sido feita por uma mulher!”
Antes que resolvêssemos nos tesourar para decidir quem iria fazer a Tânia sugeriu que os quatro fizessem a performance. Com um papo rápido com Rany, Tati e Vanessa (minhas companheiras nessa aventura) é que comecei a pensar na performance em si, no que a Yoko queria e comecei a me perguntar porque de fazer essa especificamente. Porque eu um homem ocidental estaria recriando uma performance que uma mulher oriental tinha concebido? Porque eu entre tantas possibilidades escolhi uma em que eu poderia até ficar pelado? Seria ingenuidade não prever os rumos que tal ato poderia resultar. As meninas preocupadas com o cabelo e eu com a exposição. Yoko já havia realizado essa performance em três ocasiões. Em 1964 no Japão, repetindo a experiência em 1965 no Carnegie Hall e em setembro de 2003 no Paris’s Ranelagh Theatre, ambas em Nova York.
Em Tokyo, a performance Cut Piece fez com que Yoko Ono se tornasse notícia internacional. Tendo o Vietnã como leitmotiv, fio condutor, apresentou-se com um vestido longo, branco, no centro do palco de um teatro. Coube ao público cortar com uma tesoura o vestido, deixando Yoko nua. A alta sociedade de Tokyo ficou estarrecida. Como era de se esperar, condenou-a. Mas, o protesto de Yoko ganhou as páginas dos mais importantes jornais do mundo. Trinta e nove anos depois em Nova York, segundo a BBC, Yoko teria dito que queria recriar a performance por causa das mudanças políticas ocorridas desde os ataques do dia 11 de setembro de 2001. Alguns jornais chegaram a publicar manchetes no estilo: “Performance de Yoko Ono poderá ter nudez 'pela paz mundial'.”
Em declaração feita no teatro, Yoko disse: “Força e intimidação estavam no ar. As pessoas ficaram sem voz. Cut Piece é a minha esperança pela paz mundial. Quando realizei esse trabalho pela primeira vez, em 1964, eu o fiz com turbulência e um pouco de raiva no meu coração. Dessa vez, eu o farei com amor que tenho por você, por mim e pelo mundo. Venha e corte um pedaço de minhas roupas, um pouco menor do que um cartão postal e envie para uma pessoa que você ama.” Duzentas pessoas compareceram. O vestido de Yoko era preto. O primeiro a cortar um pedaço do vestido foi Sean, filho de Yoko com John Lenon.
Na minha mente cada vez mais a contextualização se tornava distante, Japão, Mulher Oriental, Vietnã, 11 de Setembro, nada daquilo tinha a ver comigo nem com a Unirio, Rio de Janeiro, 2010...Na verdade, eu achava anteriormente, que a proposta de Yoko era mostrar a passividade do artista. Uma inversão de papéis, o artista no “Cut Piece” seria manipulado, estaria executando um papel de passividade no “jogo” com a sua “plateia”.
Preferi então enveredar por esse questionamento. Pegaria a “forma” pensada por Yoko e questionaria exatamente a inversão da forma convencional proposta pelo teatro/cinema/televisão, onde o espectador assiste passivamente o que o artista propõe. Brincar literalmente com os papéis e questionar Ativo/Emissor X Passivo/Receptor. Laura Lima já tinha se utilizado do conceito do “Cut Piece” em 2001, substituindo o corpo humano por uma cabra. O que ratificava a minha idéia de pegar a construção de uma performance e relocá-la em um outro conceito. Senti que apesar da forma escolhida ser bem próxima , a descontextualização causada pelos deslocamentos de cultura, tempo, espaço, quantidade de performers acarretariam em uma observação e resultado bastante distintos da original.
PRIMEIRA MISSÃO
Reconstituição do Cut Piece na Unirio - Rio de Janeiro, 03 de Maio de 2010. Horário: 14:45 às 15:50 Performers: Claudio Althiery, Rany Carneiro, Tatiane Santoro e Vanessa Reis
Era uma segunda feira, com um clima ameno, no horário onde há uma grande concentração de alunos no Centro de Letras e Artes da Universidade. Escolhemos um local de passagem, todos os alunos de Artes Cênicas e Música teriam que passar pelos quatro perfomers. Colocamos dois cartazes no chão com o dizeres: “Cut Piece” (Corte Um Pedaço). Optamos em ficar, formando um quadrado com cada componente sentado num pequeno banco em cada ponta voltados para dentro (dessa forma conseguíamos observar uns aos outros) e com um pote no meio desse quadrado contendo quatro tesouras.
Tão logo nos posicionamos formou-se um semi círculo em torno de nós. Fomos observados. Deixamos de ser alunos/pessoas e nos transformamos em objetos. Até por estarmos numa Academia de Artes, não havia um estranhamento, mas sim um reconhecimento ou simplesmente um descartamento. A participação do público foi bastante rica, alguns iam cortavam, outros tentavam criar uma obra de arte com nossos corpos e figurinos, uns atuavam sobre os quatro, outros apenas em um ou dois. Tinham os que pediam permissão, outros queriam nos ver pelados.
Depois que Vanessa e Tati chegaram ao fim em suas propostas, estabeleceu-se, por parte da platéia um jogo de competição. Chegaram até a propor um “bolão” para ver que iria se o último a resistir à pressão. Quem levaria a melhor Claudio (o representante masculino) ou Rany (a representante feminia)?
A partir desse estágio, começaram a interferir de uma forma mais “terrorista” para testar os nossos limites, tentando desnudar a mim e minha companheira assim como cortar o cabelo dela. O que fez que a proposta da performance se descaracterizasse e virasse um joguinho de sado masoquismo.
Havíamos pensado em fazer uma segunda fase no Calçadão de Copacabana, após a execução na Unirio. Vimos que a potencialidade da experiência performática era muito maior do que imaginávamos e preferimos abortar essa missão e realizá-la novamente em um outro ambiente fechado. Pois já que no “nosso seguro ambiente” algumas atitudes tinham sido propositadamente feitas para nos desafiar e testar os nossos limites, como seria isso no meio da rua?
SEGUNDA MISSÃO
Reconstituição do Cut Piece na Livraria da Travessa da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, no lançamento do Livro “Performance.Ensaio” de Tânia Alice em 19 de Maio de 2010. Horário: 19:00 às 20:00. Performers: Claudio Althiery e Rany Carneiro.
Dessa vez, apenas eu e Rany, sem cartazes e sem estarmos no “nosso ambiente”. Um homem e uma mulher, sentados um de frente pro outro no meio de livros, outros performers executando as suas partituras, taças de vinho e poesia.
O início foi muito semelhante ao da Unirio, a observação, as perguntas de algumas pessoas meio que pedindo permissão para interagir e a pronta participação do público que optou mais em criar figuras, obras de arte, customizar nossas vestimentas, até fazerem carinho, rezarem, comunharem com a experiência performática. Porém, novamente, quando a roupa já havia se transformado em um tapa sexo, o joguinho – sado masoquista de tentar desnudar-me para ver “meu limite”, se impôs. Fazendo que eu terminasse a performance por acreditar que ela havia se esvaziado e se transformado em uma outra questão.
O ATOR PERFORMER
DA PASSIVIDADE DO GESTUAL, PASSANDO PELA CRIAÇÃO E CAINDO NO SEXUAL
Existem algumas afirmações que na performance, é o artista que está presente, ele na sua essência e não como num espetáculo em que é o personagem que executa a ação dramática. Não sei se isso é tão fácil de se estabelecer. Afinal de contas temos um estágio de presença muito forte na performance. É verdade que não estava “atuando no papel de”, porém no caso do “nosso Cut Piece”, eu estava num estado de passividade, de serenidade quase budista, um estado que não é o meu no dia a dia...Sim, aquele era o meu corpo, mas é fato que naqueles momentos, eu não era eu. Não seria como se Claudio Althiery estivesse no papel de: O PERFORMER? Na performance da Unirio ouvi de um aluno: “Vou testar a sua dignidade”. Com certeza, se fosse eu, teria revidado, respondido, teria tido uma atitude ativa e não passiva como a do “ARTISTA PERFORMER”. E o mais instigante era que a nossa passividade era encarada como desafiadora por parte do público que entrava numa “competição” para testar o nosso limite. A potencialidade do outro como criador é enorme, apesar do jogo ser proposto por nós, são os outros que conduzem, que interpretam, que interagem por conta própria, de acordo com suas expectativas, desejos, cultura, bloqueios, traumas e limites.
Em termos de proposta, o Cut Piece, foi executado mais no sentido da forma. O diálogo com o original acabou se estabelecendo assim naturalmente, não se tratou de uma réplica e sim em algo legítimo. Se for analisado num caráter de crítica poderão até considerar que é uma profanação do original e que deterioramos a obra, mas não encaro assim, acredito na multiplicidade de opções e resultados que uma performance permite. Acredito inclusive que possamos pensar na aplicabilidade do Reenactment como forma de mapear o comportamento sócio-cultural-político de alguns grupos. Afinal mudam-se os emissores, os receptores, o contexto social-cultura-politico, a época. E uma infindável gama de variantes que é óbvio que interfere não só no processo quanto no resultado em si.
Essa dupla experiência vivida por mim e pela Rany é uma prova irrefutável de como cada performance é única. Estávamos os dois nos mesmo dias, nos mesmos locais, com os mesmos “públicos”, executando a mesma partitura (serenidade) e obtivemos resultados distintos, ações distintas...Por mais semelhante que tenha sido a nossa experiência, passamos por momentos distintos. Especialmente se encararmos do ponto de vista provocativo e sexual. Queriam provocá-la cortando o cabelo dela e a mim fazendo que a minha bunda ficasse a mostra. Enquanto eu estava mais coberto, as mulheres atuavam em mim, quanto mais desnudo eu ficava a participação masculina se intensificava, não havendo falsos pudores machistas em me tocar, em nitidamente me desnudar. Tal fato se repetiu nas duas ocasiões.
A noção de coisificação do performer, em Cut Pieces é muito forte, em determinados momentos o performer se transformou num objeto nas mãos dos “atores sociais” que participavam de forma ativa. Há uma expansão do conceito de “coisa” – Éramos “uma coisa” específica para um, para outros éramos “todas as coisas possíveis” especialmente quando criavam várias “coisas” com os nossos corpos e tinham os que nos olhavam e não nos enxergavam dando uma conotação que éramos “coisa nenhuma”. Em determinados momentos me senti como um dos bonecos de Kantor, desprovido de alma, sendo só matéria.
A conexão com o espaço foi muito semelhante nos dois momentos. Era apenas um espaço. Não havia um incomodo, dispersão ou tensão. A disposição dos participantes que estavam próximos uns dos outros permitia identificação imediata quando os outros performers estavam sendo “desafiados”. Ocasionando um “sentimento” de agente, vouyer e objeto. Éramos matéria, mas também assistíamos uma “coisa” igual a nós ser manipulada, tocada, provocada...
Fato que por estarmos no Brasil/Rio de Janeiro, a presença da sexualidade é algo muito presente. Havia uma “tensão”, sempre quando a performance avançava, quanto menos pedaços haviam para serem cortados, a questão da sexualidade aumentava. O desnudamento era algo que mexia claramente com as pessoas. Só essa questão já distanciava de uma forma enorme da proposta inicial e da proposta de 2003 de Yoko Ono. O resultado que obtivemos com a nossa experiência sem sombra de dúvidas passou bem distante do concebido originalmente.
Sinto como se a nossa "recriação" fosse um "West Side Story" que pega a fórmula de "Romeu e Julieta" e transforma em uma outra história. Não partimos de um zero, mas recriamos o original em uma outra coisa também original. Não gosto muito do termo "Reconstituição" para definir o que fizemos, porque reconstruir pra mim é executar de forma o mais semelhante possível algo que já foi constituído, o que não foi o nosso caso, nem tinha a pretensão.
Essas recriações do “Cut Piece”, me despertaram alguns questionamentos sobre: 1- A postura do artista 2- A coisificação do artista 3- A sexualidade sempre ligada ao corpo do artista 4- A duplicidade de fazer essa performance com um outro artista, me transformando em coisa e observador (do outro). 5- A possibilidade de fazer um mapeamento do público.
Gostaria de desenvolver esse ato performático por mais algumas vezes para investigar melhor essas questões.
O MOMA criou uma página no Flickr sobre a performance "The Artist Is Present", na qual Marina Abramovic permanece sentada de frente pra uma cadeira vazia, na qual os visitantes podem sentar em frente à artista e ficarem observando-a. No Flickr podemos ver as pessoas e quanto tempo cada uma permaneceu sentado.
Acima temos a foto da atriz Kim Catral (Samantha do Sex and the City) que permaneceu sentada de frente para Marina Abramovic durante 57 minutos.
No fim dos anos 30, o fluminense Flávio de Carvalho (1899-1973), que desde a Semana de Arte Moderna de 1922 morava em São Paulo, circulava pela cidade com uns desenhos debaixo do braço. À menor possibilidade de uma conversa mais duradoura, tratava logo de desenrolar os papéis e mostrava orgulhoso o que tinha certeza que se tornaria em breve uma invenção revolucionária: uma veneziana baratíssima, que ele projetara para ser vendida nas favelas brasileiras. Embriagado pelo engenho de sua recente criação, o artista provavelmente nem percebia as reações nada favoráveis à sua ideia que, claro, provou-se um fiasco pouco tempo depois. Flávio se esquecera de um pequeno - porém definitivo - detalhe: naquela época, nem janelas havia nas precárias moradias dos morros, quanto mais cortinas. O deslize, digamos assim, nem de longe acanhou o artista. Ele nunca hesitava em colocar em prática o que passava em sua cabeça. Por pura curiosidade, por puro prazer ou por acreditar mesmo. Nem tudo dava certo e por isso é tão difícil dimensionar sua importância na história da arte.
Flávio de Carvalho divide-se entre o personagem de deliciosas anedotas da São Paulo das décadas de 1930, 1940 e 1950, e o grande artista, autor de retratos e nus femininos que figuram entre as melhores obras de arte de seu tempo. Ao lado dessas duas facetas, aparentemente antagônicas, existem ainda muitas outras porque, de fato, ele fez de tudo um pouco na vida: de projetos de arquitetura a ensaios sobre moda, de cenários para teatro a pinturas, de criações de design a performances, desafiando a todo instante os teóricos até então bastante afeitos a classificações. Mergulhar em seu universo, mesmo hoje, quando as fronteiras entre as diversas manifestações culturais encontram-se tão diluídas, exige que se abandonem preconceitos. Flávio explorou tantas linguagens que ele escapa de um entendimento por completo. A retrospectiva em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no parque do Ibirapuera - somada à próxima edição da Bienal de São Paulo, que traz justamente Flávio de Carvalho como um nome-chave no elenco - pode ser uma oportunidade nesse sentido. Com cerca de 60 obras, além de 30 outros itens, como fotos e documentos, a exposição no MAM-SP tem curadoria de Rui Moreira Leite, autor do livro Flávio de Carvalho: O Artista Total (Editora Senac, 192 págs.). Leite optou por uma seleção enxuta, o que evita justamente a exaltação da pluralidade da produção do artista, algo que, do jeito como vem sendo feito até agora, prejudicou seu reconhecimento.
Não que ele ligasse muito para isso. Flávio era exibido. E ousado. E debochado. É preciso ter isso em mente para compreender melhor sua Experiência nº 2, por exemplo, realizada em uma tarde de junho de 1931, durante uma procissão de Corpus Christi que tomava a rua Direita, no centro da capital paulistana (leia texto com o relato do artista e cineasta mineiro Cao Guimarães, que refez o gesto especialmente para a BRAVO!). Vendo aquela quantidade de fiéis juntos, ele correu para casa, pegou um boné verde e saiu andando no sentido contrário ao da multidão, com o chapéu na cabeça, em um sinal de total desrespeito ao ato religioso. Não satisfeito, ainda mexeu com as filhas de Maria. Só não foi linchado pela multidão em fúria porque conseguiu se refugiar em uma leiteria na rua São Bento, onde a polícia deu-lhe proteção. Da atitude, escreveu um livro em que analisou o comportamento das massas com base em referências da psicanálise e da antropologia, e fez uma série de desenhos, que integram a exposição no MAM-SP, em que explorou o jogo do preto-e-branco para enfatizar a ira despertada nos católicos.
"POR QUE NÃO?"
Bem mais tarde, em 1956, Flávio voltou ao centro de São Paulo com sua Experiência nº 3. Na época, ele assinava uma coluna no jornal Diário de São Paulo, intitulada A Moda e o Novo Homem (os artigos acabam de sair em livro, pela Editora Azougue, 303 págs, R$ 42). Nela, o artista defendia associações no mínimo interessantes. Escreveu que os colarinhos altos começaram a ser usados pouco antes da Revolução Francesa e que, portanto, os castigos na guilhotina teriam influência das roupas do período. Ou ainda que os colares e pulseiras seriam reminiscências das correntes dos escravos. Quando o jornal pediu-lhe para desenhar uma indumentária masculina, Flávio não se contentou em mostrar o croqui. Resolveu promovê-lo pela cidade. Para ele, o homem do momento era alguém que sentia calor - portanto, uma vestimenta adequada incluiria uma saia. Talvez para um certo desgosto do artista, no entanto, mais de vinte anos depois de sua primeira experiência São Paulo tinha uma mentalidade mais avançada. As pessoas riram dele, mas a reação não passou disso - e o episódio entrou para seu vasto anedotário, embora tenha influenciado a moda de outras formas.
Grande parte de seus projetos de arquitetura também não foi para frente. Só dois acabaram realizados, e ambos estão presentes na exposição por meio de maquetes e fotos: em 1936, construiu-se o conjunto de 17 casas na esquina das alamedas Lorena e Ministro Rocha Azevedo, em São Paulo (apenas uma delas continua em pé hoje, mas muito modificada de seu desenho original); e, dois anos depois, sua fazenda Capuava, em Valinhos, atual patrimônio da família. Mesmo assim, os amigos caçoavam que as casas eram "frias no inverno, quentes no verão". Ainda nessa linha de lendas em torno de Flávio, colegas contavam que, do dia para a noite, o artista que não recusava um bom bife acompanhado de uma generosa dose de uísque anunciou-se vegetariano e passou a comer só coisas verdes e a beber limonada. Muito provavelmente, se alguém na época tivesse questionado a razão, ele responderia com outra pergunta: "Por que não?" Era assim que encarava o mundo. E isso incluía naturalmente a arte.
Cor e expressão
Para o bem da arte, seu espírito inventivo e irrequieto deixou pinturas capazes de fazer calar qualquer roda social empenhada em apenas se divertir às custas de sua figura singular. O ponto alto de seu legado nas telas centra-se na forma como explorava as cores, com forte herança do expressionismo alemão, a ponto de desdenhar os pintores monocromáticos: "São indivíduos dogmatizados dentro de um claustro e condenados ao cinzento da eternidade", escreveu certa vez. Sem riscar esboços, Flávio trabalhava diretamente na tela e começava cada peça de um jeito, sempre em busca de captar algo além da aparência do modelo. O escritor Mário de Andrade (1893-1945) foi um dos que reconheceu essa sua capacidade: "Quando defronto o retrato feito pelo Flávio, sinto-me assustado, pois nele vejo o lado tenebroso da minha pessoa, o lado que eu escondo dos outros", comentou o modernista sobre a obra presente na seleção do MAM-SP.
Outro momento importante de sua carreira nessa área está em sua Série Trágica, que infelizmente ficou de fora da seleção do curador Rui Moreira Leite e que pertence ao Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, o MAC-USP. Feitos em 1947, os nove desenhos registram sua mãe à beira do leito de morte. As obras comovem porque nelas, além da técnica, Flávio voltou a ser quase um menino que, diante de uma cena sobre a qual não tinha o menor controle, pôs-se a desenhar.
Mas nem mesmo o maior crítico de arte brasileira de todos os tempos entendeu o artista. Em um texto de maio de 1957, no Jornal do Brasil, Mário Pedrosa escreveu: "Flávio paga aqui o preço de um permanente amadorismo. O seu mal é a pluralidade de seus talentos, que vão desde os literários aos plásticos. O pior é que nenhum deles vive e isso o torna um diletante, um diletante genial em tudo, inclusive no senso de publicidade". Pedrosa falava em defesa do júri da 4ª Bienal de São Paulo, que não incluíra o artista em sua seleção. Pois Pedrosa teve de engolir pouco tempo depois da circulação de seu artigo a visita do diretor do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, a uma mostra paralela à Bienal. De lá, Alfred Barr Jr. saiu com dois desenhos do "diletante" Flávio de Carvalho. Mais: exatos dez anos depois, na 9ª Bienal de São Paulo, Flávio recebeu o prêmio na categoria artista internacional, feito jamais alcançado por outro brasileiro.
ONDE E QUANDO
Flávio de Carvalho. Museu de Arte Moderna de São Paulo (parque do Ibirapuera, portão 3, São Paulo, SP, tel. 0++/11/5085-1300). Até 13/6. De 3ª a dom., das 10h às 18h. R$ 5,50.
Até dia 13 de junho, o Museu de Arte Moderna de São Paulo exibe uma retrospectiva com obras de Flávio de Carvalho. O fluminense que viveu no auge do modernismo no Brasil, aventurava-se em projetos de arquitetura, ensaios sobre moda, cenários para teatro e pinturas, criações de design e performances. Um de seus trabalhos mais ousados foi a denominada Experiência nº2, quando, numa tarde de junho de 1931, durante uma procissão de Corpus Christi, andou no sentido contrário ao da multidão com um boné verde na cabeça, algo que, na época, era considerado um total desrespeito à religião. BRAVO! convidou o artista e cineasta mineiro Cao Guimarães para refazer a experiência de Flávio de Carvalho. Ele percorreu uma procissão em uma sexta-feira da Paixão, na cidade histórica de Mariana, em Minas Gerais. Confira o vídeo e o texto assinados por Cao Guimarães sobre a performance, também registrada em foto por Pedro Motta.
Quando, em 1931, Flávio de Carvalho colocou um boné de veludo verde na cabeça para enfrentar uma procissão de Corpus-Christi em São Paulo, procurava investigar por meio da provocação as possíveis reações da multidão. Nasceu dessa atitude um interessante estudo antropológico e etnológico chamado Experiência nº 2 - Uma Possível Teoria e Uma Experiência (Nau Editora, 152 págs.). Ao ser convidado por BRAVO! para repetir a ação quase 80 anos depois (dessa vez em Mariana, Minas Gerais, e numa sexta-feira da Paixão), vivi uma experiência bem menos radical. O efeito do uso do chapéu sobre a multidão foi nulo, tendo os costumes mudado bastante durante esse período (pude até observar pelo menos mais dez pessoas também vestindo chapéus ou bonés ao longo da cerimônia). Mas, para além dessa primeira proposição, o que mais me impactou nessa experiência foi a vertiginosa sensação de "furar" uma procissão no seu contra-fluxo. Longe de uma tese a esse respeito, o que tirei da oportunidade foi a chance de fazer uma homenagem ao artista.
A procissão começa a se formar na praça entre as duas igrejas. Seus elementos dispersos deslocam-se lentamente na direção de uma pequena ruela. A inicial forma amebóide da massa de gente milagrosamente vai se transformando em uma imensa lagarta. Do alto da ruela ouço a respiração compassada do monstro vindo em minha direção. Penso na entidade Flávio de Carvalho, ponho o chapéu de feltro na cabeça e me preparo para enfrentar a fera.
São oito horas da noite e uma leve chuva começa a cair. Guarda-chuvas e sombrinhas se abrindo como ouriçados pêlos de lagarta. Ela caminha devagar subindo a estreita rua de paralelepípedos. Duas fileiras de gente nas laterais sobre os passeios protegem suas entranhas do tempo e do espaço. No coração desta centopéia que atravessa os séculos vela-se e venera-se um defunto há quase dois milênios.
Penetro-a pela boca, por baixo de seu nariz em forma de cruz. Sinto seu hálito de lavanda pós-banho de freirinhas em êxtase. Sua língua apresuntada me enrola como um pedaço de melão preparando-me para ser espetado pela lança de um soldado de Pilatos.
Avanço solitário e na contramão até a medula da grande minhoca. Anjos começam a me sobrevoar. Deliro! O chão treme perto das artérias que me levam até o coração. Ali jaz o ser adorado. Levam-no morto para que ressuscite. A multidão está de luto. Os cânticos são tristes, as cabeças estão baixas. Anteparos de plástico protegem as velas contra o vento frio de um mundo sem Cristo. Todos estão mortos ("uma procissão em movimento é uma massa de crentes que aspiram se nivelar ao Cristo... exultação narcisista de se ver igual ao Cristo"1).
No contra-fluxo do cortejo de defuntos não me sinto mais vivo que eles. Na caixa toráxica do ser rastejante, estágio larval dos insetos, sinto a condensação da dor dos séculos, ouço o uivo dos lobos da manjedoura, os sinos dos templos de areia de Canaã. Apesar disso não grito, faço cara de sátiro, danço esse silêncio tumular. Um exército de leucócitos de batina me fulmina com o olhar. Apresso o passo na direção da música que vem do aparelho digestivo. Uma bandinha no melhor estilo "interior de Minas" lança jatos de bílis musical gaseificando a atmosfera de certa alegria contida (nos melhores velórios a música prenuncia a ressurreição do defunto). Delicio-me com o corte das fardas azul e branco dos arcanjos instrumentistas e com a "cola" das partituras pregadas no dorso do paletó. Salto por dentro de uma tuba e caio em posição genuflexal na altura da genitália da lepidóptera. A seda episcopal latejante avoluma-se cobrindo a grande manta de carne inerte sobre a pedra. O gozo da fé é silencioso e misteriosamente compartilhado.
Furo a Forma. Defloro-a! Sinto jatos de estalactite massageando-me as costas. Tremores tectônicos desconectam-me os pés. Caio. Fecho os olhos. Petrifico. Passam anos. Abro mares em sonhos. Corro entre paredes de água e acordo na cauda da lagarta.
Na cauda da lagarta reencontro, doce, a realidade. Gente feita de gente. Gente que foi ali pra namorar. Em cada rosto um pote de doce em calda: figo, goiaba, casca de laranja, doce-de-leite, ambrosia, marmelada, baba-de-moça, espera-marido, pecado-de-anjo, quindim. Suspiro fundo e me lanço no escorregador intestinal tornando-me enfim uma espécie de gás liberto no espaço. Um salto no abismo e o chapéu de Carvalho perdido no chão.
1Flávio de Carvalho ("Experiência N2 - uma possível teoria e uma experiência")
Imagens do Original feito por Yoko Ono, um vídeo de um reenactment que ela fez em 2003 e fotos do reenactment feito por Claudio Althiery, Rany Carneiro, Tatiane Santoro e Vanessa Reis em 2010 na UniRio.
Quinhentas pessoas posam nuas para foto na Inglaterra Sessão pública marca os dez anos de uma galeria de arte em Manchester. Cerca de 500 pessoas tiraram a roupa neste sábado em Manchester e em Salford para uma sessão pública de fotos que marca os dez anos galeria Lowry. O fotógrafo americano Spencer Tunick quer captar os movimentos dos indivíduos em seu dia-a-dia. O trabalho irá continuar no domingo e deve reunir ao todo mil voluntários. A mostra será exposta a partir de junho no Everyday People (Pessoas no dia-a-dia, em português). Tunick já fotografou pelados em diversos projetos e países. O mais recente, no mês passado, foi uma foto conjunta de cinco mil pessoas nuas nos degraus da Ópera de Sydney, na Austrália.