domingo, 20 de novembro de 2011

Performance_Fragil


A idéia da performance surgiu a partir da análise de certas estruturas e acontecimentos urbanos que me faziam ter vontade de dizer algo, não de uma maneira panfletária, didática, mas de modo que deslocasse o olhar do cidadão comum que passa na rua; operasse uma brecha no cotidiano.

Tinha vontade de criticar o descaso do governo com a cidade e, consequentemente, com seus habitantes, fato que resultou (entre tantas outras coisas) na explosão de uma série de bueiros em ruas movimentadas da cidade do Rio de Janeiro (Praça Tiradentes, Bolívar, por exemplo) deixando muitas pessoas feridas e levando algumas à morte. Que comprometimento é esse de um governo que deixa a cidade se alagar com uma garoa qualquer, que não se preocupa com os riscos de desabamento (a não ser de maneira extremamente espetacular e sensacionalista, como vemos nos principais jornais da mídia)? E agora, ainda por cima, temos que encarar nosso asfalto como um campo minado? Enquanto isso, o salário dos deputados só aumenta...

Esses questionamentos geraram, então, a vontade de criticar de modo irônico o perigo que esses bueiros representam. Começamos a interditar os bueiros, taxá-los como objetos frágeis. Tínhamos o objetivo de intervir no caminho das pessoas, de denunciar esse desrespeito que existe e que a gente suporta todos os dias. Durante algumas horas eu e Luisa Nolasco (Fotógrafa) andamos por Ipanema a fim de realizar nossa “missão”. Começamos em uma rua pouco movimentada para testar a ação e seguimos para a Rua Visconde de Pirajá. No começo, a reação das pessoas me fez perceber que era nítida a relação entre a minha ação e a da Luisa, a existência de uma câmera dava de algum modo uma credibilidade fictícia para elas. Pedi à Luisa que me acompanhasse a uma certa distância, se posicionando de maneira discreta (o que fez com que algumas fotos adquirissem uma qualidade interessante para o registro, o lugar do que é escondido, do que está burlando algo para registrar a ação). Desta forma, pretendíamos impedir que a performance adquirisse um caráter artificial, posado e pré-combinado.

Depois dessa mudança, o diálogo (não apenas verbal) com os passantes se intensificou e eles começaram a interagir com a ação. Aplausos vindo de três garotos que estavam na janela do prédio em frente, risos, gestos de aprovação, comentários do tipo:

-- “Isso é sério ou é arte?”

-- “O que é isso moça” (Um menino de uns quatro anos me perguntou)

-- “Cuidado que vai explodir!”

--“Boom”

--“Ajeita a calça que tá todo mundo vendo seu cofrinho”

Assim, aos poucos, a intervenção foi esquentando e ganhando forma, a massa urbana parou de atrapalhar, começou a fazer parte do trabalho, a construí-lo junto comigo, a ditar minha postura, meu modo de estar presente ali. No final, era curioso perceber como, apesar de efêmera, a performance estava deixando seu rastro: alguns passantes já vinham acompanhando-a por alguns quarteirões e ao me encontrarem regiam como se pensassem “Ah, é você que está fazendo isso tudo!”.

Ao deslocar o adesivo frágil do aeroporto para os bueiros procuramos também trazer à tona o sentido múltiplo que ele podia abarcar: associamos a fragilidade dos bueiros com a fragilidade da vida e a fragilidade do sistema e do governo no qual estamos inevitavelmente inseridos. Lembrei-me da fragilidade tão bem descrita e problematizada por Jean-Claude Carrière em seu livro “Fragilidade”. O quão patético se torna todo nosso esforço para se defender, criar um escudo, não se afetar, socar o sofrimento; quando percebemos que a vulnerabilidade, a fragilidade é fundamental e inerente a todo e qualquer ser humano.

Decidi por documentar a performance através de fotografias pelo seu forte apelo visual, rico e cheio de possibilidades. Desse modo, procuramos não apenas mostrar o ocorrido, mas construir pontos de vista, novos olhares poéticos, irônicos, esteticamente interessantes que possibilitassem o surgimento de significantes e significados em potencial, incentivando a presença de um olhar ativo, que descobre e cria sua própria visão, através da construção de narrativas imagéticas. O registro aparece, portanto, como um desdobramento da própria performance, uma outra camada que possui uma existência autônoma.

segue o link do registro fotográfico:

www.flickr.com/photos/performance_fragil

www.flickr.com/photos/performance_fragil2

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