quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

Just

Just

Estudo sobre Margaridas II

Insolitas margaridas
Margaridas distantes dentro do presente
Doloridas amargas idas
Corpos de leite em pétalas skinny
Avareza de carne
Não disposta a moer em caules espinhos
A Infante fatalidade
Nina o corpo do passarinho desfalecido
Amarga ida
Te lambo num cais inerte
Não que não sejas em si um mimo
Apenas tento me esquivar dos titãs não adormecidos
que me trituram pela geléia dos ossos
A sua pele branca
Límpida em desejo meus augúrios se desfazem
Latejo
Lenta e estonteada fome em que a aceleração é vertiginosa
Tua pele
O branco e o rosa
E eu que antes não havia sentido essa fome liquida
É no dorso das palafitas que minhas solas resistem
Os gomos de sua digital em minhas papilas
É meu festim diabólico
Satã comeu mais que um cérebro
Mas eu não o temo
Eu temo o menino de pele branca
O papel em branco do autismo do seu coração

Valeri Rodrigues

Eu escrevi este “poema” em 29 de setembro (fluxo de um rompimento) data anterior a realização de minha performance. Tempo em que eu ainda perdida, me sentia sem desejo até de pensar sobre qual obra e artista eu iria escolher para fazer o re-enactment. Mas agora entendo como o caos de minha resistência se condensava e subterraneamente articulava as imagens de Cindy Sherman, Marina Abramovic, Ulay , Bas Jan Ader com os meus abismos interiores.
Por mais que a gente não saiba, o olho não escolhe ao acaso, algumas imagens já tinham entrado definitivamente na minha retina, já tinham se articulado com a minha vida e o meu presente antes da realização do trabalho.
Depois dos turbilhões que se emanciparão de mim no ato da primeira feitura da performance, pude refazer o percurso e juntar os cacos, para refazer uma síntese no vídeo que apresento agora.
A princípio pensei em I’m too sad to tell you, de Ja Bas Ader, descoberto através de Luciana Serpa que refez de um ponto diferente do eu gostaria de fazer, pensei até mesmo em fazê-lo rindo. Como seria o processo de instaurar uma emoção tão forte e gravá-lo? Mas logo desisti. Depois pensei então na performance Free Hugs, distribuir abraços gratuitos na cidade, ou quem sabe vendê-los para ver como as pessoas se comportariam em relação a abraços vendidos, mas também deixei de lado por não querer me expor tanto, na rua, no meio de pessoas, tendo que sentir outros corpos juntos ao meu.
O que fazer? Uma imagem tinha entrada na minha cabeça, Marina Abramovic e Ulay, um segurando uma flecha e o outro um arco: relacionamento, amor, ódio, repulsa e atração. Tensões que me são intimas. Logo vi o vídeo AAA de ambos também e resolvi refazê-lo.
No dia em que finalmente ia realizá-lo, uma amiga me liga desesperada em função de um amor novo e instável e me pede para eu ir a sua casa e diz que vai me ajudar a fazer a gravação. Transfiro tudo para a nova realidade que desponta, chega Claudio Althiery meu parceiro na performance e Tatiana, a amiga, não sabe gravar na sua maquina Canon nova. Como ela havia me mostrado o trabalho da Nam Goldin, fotografa americana, que tem uma obra direcionada ao olhar da intimidade de casais, gays, lésbicas e transexuais, achei que seu trabalho se relacionava com o de repulsa e atração de Marina e Ulay e resolvi fazer as fotos.
As fotos para minha surpresa se desenrolaram sincronicamente com o Claudio, mergulhei suavemente nesse universo de intimidade, de repulsa e de atração, de tensão constante e insatisfação, vazio, prazer e tédio através dos nossos corpos e das nossas movimentações. Fiquei inclusive à vontade para me desnudar, tudo cercado de delicadeza, apesar de intenso.
Só que no momento posterior, entrei em contato com os meus fantasmas a partir do problema técnico que se desenrolou após o computador de minha amiga dar pau. E não foi só o computador que deu pau, nós demos pau, as fotos deram pau, minha cabeça deu pau. Perdi o trabalho. Me senti impotente, um trabalho tão intimo já não me pertencia mais, e eu não tinha nenhum controle sobre ele, pois ele estava na mão de terceiros e todo o tipo de vontade, que não a minha, podia incidir sobre ele. Fiquei arrasada, triste demais para contar claramente o que havia acontecido para o meu parceiro, o Cláudio.
Mas ao perder o trabalho o reencontrei.
Depois da última aula, pude perceber o que eu havia encontrado: eu, a minha matéria orgânica, química, histórica e intransferível. E o quanto todas aquelas imagens tinham penetrado na minha mente e coração para que eu reproduzisse e vivesse “por acaso” todas as referencias que se aliaram às minhas lembranças e vivências anteriores. Tudo estava registrado e havia se misturado a outros registros de minha vida. Como se os fantasmas das performances desses artistas tivessem vindo acordar os meus próprios fantasmas.
Lehmann afirma no seu livro, Teatro Pós Dramático: “na arte performática a ação artista do artista está menos voltada ao propósito de transformar uma realidade que se encontra fora dele e transmiti-la com base em uma elaboração estética, aspirando antes a uma autotransformação’.”
O amor exige entrega, conseqüentemente o que vivemos é intimidade. Uma intimidade que se dá e que não se tem mais o menor controle sobre ela, tendo o outro o poder absoluto de vivê-la como quiser. Acredito que foi nessa fenda que pude sentir a repulsa e a atração de forma mais profunda, podendo entender o meu pânico de intimidade e exposição – na realidade em minha solidão a minha aparente exposição é um escudo com o qual permaneço escondida, portanto ela é falsa, o escudo está em minhas mãos, ao me deixar ser vista pelo outro nua, me desmascarei. Daí passei a acreditar na potencia do nu, que não é apenas tirar as roupas, mas é se expor de verdade. Numa relação somos ao mesmo tempo potentes e impotentes. A assustadora impotência, nada mais é que um desamparo em relação a própria vida. Mas uma impotência inevitável, por mais que sofrida. O nu do meu corpo me deixou impotente em relação aos meus preconceitos, ao outro e a minha imaginação.
Meu corpo e minha nudez foi a matéria principal que me fez mergulhar nas minhas idiossincrasias, e voltando a Lehmann, “o corpo é aproveitado como material no processo de significação, mas onde essa situação é expressamente provocada com o objetivo da autotransformação.”
Ao viver esse processo real no aqui agora pude encontrar o passado que está presente e entender que essa performance foi a síntese de um amor mal acabado, atravessado por uma atração e repulsa extenuantes, em que eu desempenhei o papel de uma palhaça de mim.
Dia seguinte ao da aula, fui comprar meu nariz de palhaça e minhas rosas: ao escolhê-las pensei, é inevitável que no processo de selecioná-las eu não me arranhe nos espinhos. Arranhos de liberdade, de catarse. Talvez. Fiz duas séries de fotos minhas, em dias diferentes, pois esperei as rosas murcharem. Eu mesma me fotografei, não usei tripé, ou disparo automático. Em algumas fiz um trabalho de textura em outras nada fiz. O importante é que mesmo ingênua de mim, superei as minhas resistências, num trabalho que não fechei e que se direciona a outros processos. Afinal são flores e uma Ophélia. Uma Ophélia descoberta nas pétalas das rosas desmanchadas.

Bibliografia

LEHMANN, Hans Thie. Teatro pós dramático. Trad. Pedro Sussekind. Cosacnaify. São Paulo: 2oo7.
Valeri Rodrigues

"O que eu queria te dizer"

"Sou uma filha da natureza:
quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo,
de um mistério.
Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja. Isso lhe assusta?
Creio que sim. Mas vale a pena.
Mesmo que doa. Dói só no começo."
Clarice Lispector

O surgimento da performance

Refazer algo que já foi feito, concebido, a princípio me pareceu algo despropositado. Criar uma performance a partir de uma história já vivida por alguém não era uma idéia que me fascinava no início. Mas, isso foi no início. De lá pra cá a vida corria e tinha pressa, pensei em usar coisas que já tinha feito, pensei em fazer uma performance em parceria com meu companheiro, mas nada disso poderia disputar com o que o destino joga para nós. No meio dessa busca por um re-enactment minha relação amorosa entrou em crise, depois de sete anos, eu me vi tendo que lidar com a separação. Se isso me assusta? Sim, assusta, porém, como a arte me parece ser algo que o tempo todo dialoga com a própria vida do artista, sua intimidade e experiências, a descoberta do trabalho da performer Sophie Calle foi um caminho natural. Ela, entre outras performances, concebeu "Cuide de você" onde dividiu com 107 mulheres um email do namorado que terminava o namoro dizendo esta frase: "Cuide de você." Decidi que também precisava cuidar de mim, e queria as mulheres que conheço e compartilho muitas coisas da minha vida junto comigo. A partir disso foi só conceber a idéia e convidá-las para viver esta aventura comigo. Decidi que intitularia meu trabalho de: "O que eu queria te dizer", e convidei, por email, 20 mulheres para gravar seus depoimentos dizendo algo que ficou por dizer e não foi dito a alguém que elas amavam. De todas, a maioria topou, mas apenas 7 corajosas mulheres gravaram. O que tinham a dizer foi dito, está registrado e diz mais do que nós imaginamos. Fala sobre como a intimidade de alguém pode dizer tanto sobre tantas pessoas, como o privado se mistura com o que é público e mais, como a palavra "comunicar-se" assumiu um sentido tão infinitamente maior do que eu poderia pensar...
A questão da estética relacional
A Estética Relacional, difundida por Nicolas Bourriaud, tem como ponto de partida as relações humanas. Logo, os trabalhos artísticos relacionais estão diretamente ligados, ou melhor dependem, do público para existir. Dependem desta relação que faz com que o público, o espectador seja também parte da obra. A performance, a meu ver, não atinge seu objetivo quando não provoca esse encontro, essa identificação daquilo que é feito pelo artista e é imediatamente recebido e transformado por aquele que assiste. Quando se trata de expor algo íntimo, de tornar pública a própria intimidade, como faz Sophie Calle em seus trabalhos e como eu tentei fazer no meu, o artista cria um elo com seu interlocutor, quase que um acordo de cumplicidade que possibilita diferentes significados e interpretações para a obra. É interessante que a arte, quando parte das relações entre as pessoas, toma caminhos inesperados e por isso mesmo se mostra viva e em constante mutação. A performance é isso, é jogar todo o tempo com as relações e ver surgir deste jogo, subjetividades e interpretações para aquilo que inicialmente te moveu. E ver que aquilo que dizia respeito a você, passa a ser muito maior que a sua vivência, passa a ser muito maior que a sua dor. E é aí que está a graça. Pois mesmo que doa, dói só no começo. Depois passa, e o que fica é a liberdade, é o amor. Sem dor.

Priscila Fialho

Bibliografia:
THEML, Neyde. Público e privado na Grécia do VIIIº ao IVº séc. a.C.: O Modelo Ateniense, Rio de Janeiro: Sette Letras, 1988.
BOURRIAUD , Nicolas. Estética Relacional, S.Paulo: Martins, 2009.
LEHMANN, Hans. Thies O teatro pós-dramático , S.Paulo: Cosac Naify, 2007.
MELIM, Regina. Performance nas artes visuais, Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
Obs.: Estou com dificuldade para postar o vídeo no youtube pq ele tem 20 min de duração. Assim que conseguir compactar eu disponibilizo no blog.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Considerações finais sobre o re-enactment Pancake



Performance... pra quê? Por que? Confesso que essas eram perguntas frequente para mim antes do início deste período. A performance ainda é vista por muitos com preconceito. Neste sentido a performance de Paulo Bruscky “O que é a arte, para que serve?” Se encaixa perfeitamente no contexto dessas pessoas que não entendem o intuito dessas realizações.

Regina Melim introduz seu livro “Performance nas artes visuais” dizendo que o termo “performance” é tão genérico quanto as situações nas quais é utilizado. Uma performance pode ser encontrada em diversas áreas da arte, isto é um dos motivos pelo qual é tão difícil classificar ou julgar esse ato.

Ao pesquisar diversos artistas me deparei com Marcia X. Foi uma identificação imediata com o trabalho da artista. A sua agudez que acompanhou toda sua trajetória, acrescidas de uma forte ironia foram os pontos de maior identificação. Pancake possui essas características e por isso me interessou profundamente.

Desde os anos 50 os espaços e objetos da vida cotidiana são motivo de investigação e fascinação de diversos artistas. Allan Kaprow, em seu tributo a Jackson Pollock diz:

“-Objetos de todos os tipos são materiais para nova arte: tinta, cadeira, comida, luzes elétricas e neon, fumaça, água, meias velhas, um cachorro, filmes, mil outras coisas que serão descoberta pela geração atual de artista. Esses corajosos criadores não só vão nos mostrar, como que pela primeira vez, o mundo que sempre tivermos em torno de nós mas ignoramos, como também vão descortinar acontecimentos e eventos inteiramente inauditos...”

Em Pancake, Márcia X faz com que a ação executada (derramamento do Leite Condensado) com excesso torne ações corriqueiras em imagens absurdas.

O leite condensando pode criar uma série de códigos antagônicos:

Leite x sêmen

Maternidade x Virilidade

Afeto x Erotismo


O que mais me impressiona nesse trabalho e consequentemente nas performances em geral é a multiplicidade de interpretações geradas por uma ação.

Agir no limite entre a consciência e o transe...A perseguição pelo supérfluo, a maquiagem que deforma, a busca do prazer que leva o oposto... todas essas indagações me passaram pela cabeça ao refazer Pancake. Depois do re-enctment realizado li uma frase de Arnaldo Antunes que me remete muito a todo esse processo: “Sempre é pouco, quando não é demais”. Talvez essa seja uma conclusão ao ver Pancake.


Bibliografia:

Melim, Regina. Performance nas artes visuais, Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

O QUE É ARTE? e PARA QUE SERVE? In 4 dias e 3 noites

EXPERIÊNCIA 02

O difícil do estudo acadêmico da performance, apesar de estar num curso de teatro e por mais estranho que possa parecer, é o preconceito. Esta é a experiência que observo. É tudo muito legal, interessante e pertinente, mas... mas... mas... Sempre tem um mas... E é possível especularmos dezenas de motivos. Não vem ao caso. Para além do que cabe ou não ao teatro e às teatralidades contemporâneas, o questionamento por trás de tantos ‘mas’ está no que deve ou não ser validado como arte.

A atividade artística é mutável, suas formas, canais de expressão e funções refletem a época e o contexto social em que se inserem. Nós, no contexto da pós modernidade, de espetacularização da vida e velocidade e diversidade de meios de comunicação, discutimos a transitividade do objeto cultural, questionamos o real e o ficcional, a autoria das obras, suas possibilidades comunicativas, de alteração das relações interpessoais no tempo e no espaço, de diferentes formas de interação entre sujeito e objeto da arte, apenas para citar alguns debates. É mais do que natural que o papel da arte (e do artista), de maneira mais ou menos específica, seja questionado. Mas para que serve o questionamento? Qual é o seu foco? Uma melhor compreensão da nossa relação com os outros e com as coisas da vida de modo a fazer do mundo um lugar mais solidário e melhor habitado, ou uma tentativa de compreender melhor seus meios e objetos para a distinção e sacralização de formas?

Dentre os muitos teóricos que cercaram os deliciosos encontros da turma de ATAT 2010/02 nos debates sobre arte, performance e re-enactment, o que mais me toca é Nicolas Bourrioud e suas proposições de uma arte que, sobrepondo-se às esferas do público e do privado, se constrói e acontece no contexto das relações interpessoais. Ele nos mostra a existência de uma arte que é relacional, calcada nas intersubjetividades e cujas temáticas são a possibilidade de encontros, a abertura de canais comunicativos num meio urbano mecanizado, a atribuição coletiva de sentido para as coisas da vida, possibilitando, no mínimo, sociabilidade pela desatomização de relações e pela criação de canais de diálogos.

Sim, a arte, em maior ou menor grau, sempre foi relacional e motivadora de diálogos. Ou, nas palavras de Bourrioud, “o mundo da arte, como qualquer outro campo social, é relacional por essência na medida em que apresenta um sistema de posições diferenciais que permite sua leitura.” Mas aqui, como mostra Bourrioud, não se trata das atribuições inerentes à existência da arte, mas às necessidades implicadas nela pela contemporaneidade. Num mundo onde as relações inter humanas caminham da superficialidade ao nada, a arte se propõe a ter como objeto a geração de contextos que as possibilitem e, mesmo, que as criem. São experimentações sociais urbanas que se completam pela interação do espectador que, assim, é também autor dessa ‘obra’ transitória no tempo e no espaço.

Conversando com amigos do curso de teatro sobre a Estética Relacional, de Bourrioud, me dei conta de que, de fato, a performance – como gênero ou linguagem – é apenas “vitrine” de algo maior que, por falta de palavras e pelo cansaço do fim de período, chamo provisoriamente de conservadorismo aliado a uma visão elitista da arte – se é que no fundo não são a mesma coisa... De uma maneira geral e resumida, as pessoas com quem falei acham que arte deve ser apreciada por todos (democratizada), embora nem todos tenham condição de compreendê-la, pois para tal é necessário um conhecimento específico sobre arte. Pelo mesmo motivo, alguém que não tenha sido ‘ungido por deus’ e/ou não tenha passado por um treinamento prático-teórico não terá condições de se expressar artisticamente. Como conseqüência, a estética relacional só propiciaria ‘obras de arte’ se vivenciada por artistas, no mais seria fracasso e diletância.

Não. As conversas não tinham o cunho da pesquisa e nem tiveram um número expressivo para amostragem – 23 – mas, ainda assim, considero significativo se avaliarmos estudantes de arte no contexto da universidade pública brasileira, num universo reduzido como o nosso – um curso de teatro na UNIRIO.

Por conta disso, decidi que meu re-enactment seria nas ruas e, de alguma maneira, deveria fazer com que as pessoas que interagissem comigo refletissem sobre a arte; sobre a existência ou não de uma essência que a identifique; sobre quem faz arte e qual a função de tudo isso em nosso quotidiano.

Eu já estava há uns meses namorando os trabalhos do Artur Barrio, um artista plástico incrível (conceitual e performático), português com 55 anos de Rio de Janeiro, que trabalha com sobras e resíduos do mundo fazendo de seus trabalhos, construídos por materiais de suporte marginais e efêmeros (sangue, carne, pão, papel higiênico, sal e afins), uma crítica às condições de produção da arte, sua circulação e consumo na sociedade contemporânea. Eu queria experimentar esse caminho e ter como bússola a estética relacional... Foi quando descobri “4 dias 4 noites”, uma experiência não programada, realizada em maio de 1970, que pretendia, tendo o cérebro como motor da obra, levar o corpo a um nível de exaustão que desembocasse num patamar elevado e/ou máximo de criação.

Barrio começou a andar a pé pelo município do Rio de modo a fazer as percepções guardadas e as que eram apreendidas ao longo da experiência condicionarem a mente ao trabalho criativo e o corpo à sua atuação como máquina; que não pára; que não cansa; que executa. Ele observava a cidade, as pessoas na cidade, afetava e se deixava afetar por elas. Com ele, além do corpo e cérebro – suporte de fundamentação do trabalho – também um caderno de artista para anotar idéias e experiências.

O tempo da experiência foi determinado pelo corpo – poderia ter durado seis dias e seis noites – que parou por exaustão e por pneumonia. O caderno de artista foi feito depois, por memória das experiências vividas, possivelmente, apoiado em algumas poucas anotações. O resultado, além de um apuro do autoconhecimento e da autotransformação, está, segundo Barrio, latente em suas obras depois de maio de 1970.

Lendo os estudos da Regina Melim sobre a performance nas artes visuais, descobri um trabalho do pernambucano Paulo Bruscky que vinha de encontro ao que eu queria: “O que é arte? Para que serve?” (1978). Bruscky andava pelas ruas, entrava em galerias e cafés com uma placa pendurada no pescoço com essas frases.

Este trabalho de Bruscky, em particular, é um questionamento não apenas à sacralização da arte e aos ‘objetos’ que a representam em detrimento da experiência artística e às relações comunicativas que esta última pode gerar/facilitar, mas, também, uma crítica direta à censura imposta pelas ditaduras, que impedia o trabalho de artistas por toda a América Latina.

Paulo Bruscky realizou – e realiza – livros de artista, intervenções urbanas, poesias visuais, além de ser um dos pioneiros da Arte Postal na América Latina, utilizando em suas obras diferentes mídias, que ganharam força no Brasil na década de 1960, como Xerox, off set, carimbos, vídeo e etc., trabalhando de forma experimental e multimidiática. Ainda assim, os trabalhos de Bruscky refletem sua crítica aos redutos oficiais das artes como museus e galerias e, por isso mesmo, são um convite à reflexão e ao experimento de outros espaços para a realização/acontecimento artístico.

Meu re-enactment, então, estava decidido: uma junção de 4 dias e 4 noites, de Artur Barrio, com O que é arte? Para que serve de Paulo Bruscky.

Experimentando o suporte

* Concepção : Aline Barcelos e Maria Grey / Confecção: Aline Barcelos

O registro

Optei por não filmar. Embora alguns amigos tenham filmado momentos meus na rua, achei que filmar poderia deixar as pessoas intimidadas e, além disso, por questões técnicas poderia limitar minha ação. De qualquer forma, tanto os fragmentos de vídeo não postados, como as fotos postadas são, apenas, como o nome diz, um registro, no meu caso um registro mais documental do que artístico.

* Batista, Alan e Ramon, após longa conversa, abrigo da chuva, água e café, na Praia do Flamengo.

* Francisco, um dos produtores do show do Rush, que me perguntou: Se a sua profissão é artista, o que você faz para ganhar dinheiro?


* Entrada para o show do Rush depois que eu esclareci que não pretendia furar fila.

* Dona Maria do Estácio, adorou minha 'estrutura', me deu água, amanteigados e seu endereço caso eu precisasse de ajuda...

Manoel, catador de papel, em dia de mudança do Estácio para a Praça Onze: "Arte é tudo o que se faz para embelezar o mundo".

* Pavuna. Onde apenas algumas poucas crianças vieram conversar comigo...


Algumas conversas

*OBS: Como se faz para postar notas de voz?

Breve análise da experiência

O corpo fala, em verdade, grita. O meu gritou de febre e pneumonia – para ser fiel ao Barrio – após 4 dias e 3 noites. Eu precisava de repouso. Precisava também – e acho que ainda preciso – de tempo para assimilar tudo. Andei muito. Peguei um ônibus para atravessar a Brasil e ir para a Pavuna – no último dia. Passei a maior parte do tempo andando pelas ruas, mas entrei em museus, shows de música, teatros, bares e restaurantes. Não tenho como postar experiências mais específicas porque, a exemplo do Barrio, ainda estou reconstituindo meu caderno de artista, que, inclusive, pegou muita chuva...

Eu tinha estabelecido dormir de cinco horas por dia durante a experiência, na minha casa ou na casa de um candidato a anjo próximo ao local onde eu estivesse. Não sei se isso foi bom... Me cansei mais nos momentos de descanso do que andando. Adrenalina e ansiedade, talvez.

Não precisei de muito para afetar os outros... A minha presença com aquela estrutura enorme em volta do pescoço era suficiente. O primeiro dia foi difícil porque eu estava receosa. Mas fui surpreendida por aplausos, beijos, conversas e manifestações de todo o tipo que sem que eu dissesse qualquer coisa reverenciavam a experiência. Eu ouvia... As pessoas alteravam a frase: Arte serve? Pra que? (esse é apenas um exemplo). E falavam sobre “O que é arte? Para que serve?” – de modo que quando não falavam eu perguntava –, quando as explicações e os elogios se esgotavam era o momento da reflexão... “Qual é o espaço da arte na minha vida?” E assim alterávamos nossas relações para um nível mais pessoal, trocávamos experiências, desejos, telefones – que já viraram e-mails e encontros para boas conversas. Foi o caso do Wellington, segurança terceirizado do MAM, com quem passei uma noite conversando sobre arte, na casa do Hélio Oiticica exposta no jardim do museu, cujo maior sonho é construir uma família e o grande projeto artístico é construir a casa do pai (ele tem a planta baixa que desenhou, há anos, na carteira).

* Preparando a obra do Oiticica para a conversa da madrugada: água, mesa, biscoito e bancos.

Da zona norte a zona sul os questionamentos do percurso arte-vida mudavam, o corte de classe e a acessibilidade às expressões artísticas (física e econômica) influenciam todas as esferas da vida humana, não seria diferente para a arte. O consenso foi o de que a arte educa e é essencialmente uma forma de comunicação e que, por isso, amplia e estabelece possibilidades comunicativas entre as pessoas. “E eu” – me atrevi a perguntar – “estou fazendo arte?” A maioria disse que sim. Para os que diziam que não eu perguntava: “Se com este trabalho eu estou estabelecendo uma possibilidade comunicativa com você por que não é arte?” Eu sei... Radical e provocativo. Mas tive respostas ótimas, do tipo: “a arte é mais profunda, nós estamos apenas conversando e eu entendo tudo o que você diz.”, por Ricardo Torres, técnico da Oi, no Meier.

Enfim... Penso muito em refazer esta experiência; em utilizá-la para aprofundar este estudo temático. Mas, dentro do que me é possível, longe de acabado ou concluído, este re-enactment me mostra que o lugar do preconceito à determinadas expressões artísticas existe não por um “elitismo acadêmico” e, menos ainda porque a humanidade é uma fábrica de produção de diferenças, mas sobretudo porque sua raiz é estrutural, é fruto do sistema em que estamos inseridos e se reflete não apenas na arte, mas em todas as esferas da vida social.

A arte, necessidade humana, pode, no entanto, como mostra Bourriaud, fazer desta questão um ‘problema’ à sua estética e, a partir de pequenas ações, diminuir os impactos estruturais da vida quotidiana criando, propositadamente, zonas de suspensão em que se faça possível vivenciar e refletir meios de melhor habitar o mundo, a partir de obras que proponham esta, então, utopia da proximidade, da convivência, da fraternidade...


Bibliografia

Bourriaud , Nicolas. Estética Relacional, S.Paulo: Martins, 2009.

Melim, Regina. Performance nas Artes Visuais , Rio de Janeiro: Zahar, 2008.


















































Primeira impressão...

Performance, para mim que sou tímida, é muito difícil, tenho um certo receio, medo da reação das pessoas. Então procurei bastante para achar alguma performance que fizesse algum sentido para mim e eu então pudesse fazer o re-enactment.
Escolhi fazer a meditação coletiva, por ser uma questão que está muito presente nesse momento da minha vida, estou repensando a correria do dia a dia nas grandes cidades e até que ponto isso vale a pena, as relações entre as pessoas e se a religião está na vida dessas pessoas e como.
Depois que decidi a performance foi fácil saber o lugar, Campo de São Bento, em Niterói, que é aonde eu moro. É uma espécie de Praça/Parque, muitas árvores, lago com patos, um chafariz e uma "rua" principal que várias pessoas passam todos os dias. O Campo e cercado por quatro ruas, duas muito movimentas e vitais para o trânsito da cidade, a entrada principal fica em frente a uma rua que dá acesso a Ponte Rio/Niterói, com trânsito praticamente o dia todo.
Desde de criança frequento o Campo e desde que comecei a estudar numa biblioteca que tem lá dentro, na época do vestibular, percebo que as pessoas passam por ali e não se dão conta de tão bonito que é o lugar, do ar quase puro que ele mantém, dos pássaros cantando... passam correndo e vão trabalhar e estudar sem reparar no ambiente a sua volta, muito menos nas pessoas.
Para tentar questionar isso, chamei três amigas para fazer a re-enactmet comigo, só que no dia só uma foi, ai em vez de duas fazerem comigo e uma fotografar, eu fiz sozinha e a minha amiga Fran fotografou.
Sentei na calçada dessa rua principal do Campo, em posiçao de meditação com os olhos abertos observando o movimento das pessoas, que não entendiam nada, pensei que ia conseguir ficar a manhã toda lá, mas o meu corpo não acostumado reclamou e depois de um pouco mais de um hora parei, o mais difícil foi lidar com os olhares das pessoas, teve gente que queria parar e conversar, para tentar entender. Mas foi bom ver que elas me viam ali, mesmo sabendo que estava de alguma forma incomodando e intrigando elas, para não ter a sensação de que nada mas importa e que realmente as pessoas não reparam nas outras que estão a sua volta.



Segunda impressão...

O que quis questionar com a minha performance foi a correria do dia a dia, a falta de tempo, o excesso de trabalho e problemas... Um estado lindo como é o Rio de Janeiro e não prestamos atenção, nem nas pessoas que estão a nossa volta.

Escolhi o Campo de São Bento por ser um lugar lindo e calmo bem entre o estresse da cidade de Niterói, as pessoas cruzam o Campo todos os dias para fazer baldeação e nem admiram o lugar.

Me pus ali para ver se conseguiria obter alguma reação ou percepção alheia, consegui, mas nenhuma foi agradável, as pessoas me questionavam, olhavam pensando que eu era maluca, uma senhora queria que eu levantasse porque aquele lugar era sujo, passava cachorro, rato, barata...

Depois de fazer fiquei pensando que queria refazer, e foi o que a Tania me sugeriu também, mas ironicamente, por falta de tempo não consegui refazer a performance a tempo, mas agora nas férias quero, gostei da experiência de questionar, de ficar esperando a reação das pessoas que muitas vezes é incompreensível.

Acho que essa questão de o que estamos fazendo com nossas vidas serve para tudo. Será que as mudanças estão sendo favoráveis? Será que tem como parar e ir contra a maré? Não para ser nostálgico, mas em alguns pontos o antes era melhor que o agora, mas não temos que nos apegar ao passado e sim modificar o presente, e sem dúvida parar e ver se o que estamos fazendo é o que realmente vale.

No texto “Estética Relacional” Nicolas Bourriaud até menciona uma crescente urbanização da experiência artística e uma mecanização das funções, a sociedade está caminhando para um mundo sem contato, sem relações, e nós, artistas podemos fazer as pessoas pararem para pensar.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ATAT e Eu: em processo. ??????????!!!????????

EXPERIÊNCIA 01

Refazer uma performance… Como? Por quê? O que me direciona à escolha? Estas foram as primeiras indagações pelas quais passei. Meu desejo era – e é – o de trafegar pelo conceito de criação de espaços de convivência, de zonas de relacionamento que se estabeleçam não apenas como o eixo, mas como a própria realização artística, e a partir das quais também se possa observar as distintas relações estabelecidas entre sujeito e objeto do fazer artístico. Nada novo, diferente e nem mesmo ousado, porém, instigante e mobilizador para mim. O motivo? Ainda não sei explicar suas raízes subjetivas e também não sei se esta explicação formal é importante.

Apesar de inspirada por muitos artistas, meu “punctum” primeiro cravou-se nas experiências do Rirkrit Tiravanija, mas sempre ouvia de amigos: “isso é batido”, “isso não vai dar certo”, “isso é bobagem”, “isso não vai te levar a lugar nenhum”... Enfim... Não fiquei desanimada, mas comecei a me sentir vazia e com medo, possivelmente, de enfrentar a mim mesma – fato que eu não queria admitir, pois teria o valor de um salto triplo rumo à paralisia.

A desculpa – Para sair da inércia eu precisava de duas coisas: uma desculpa e uma nova idéia. Resumindo, Tiravanija, por decreto, tornou-se algo distante e muito elaborado e, para mergulhar em suas experiências, seria necessário me experimentar em contextos mais simples e próximos. Pronto. Eu tinha uma desculpa.

A idéia – O assunto surgiu. Conversando com amigos, não me lembro como e nem por que, começamos a enumerar as obras públicas iniciadas e abandonadas no município do Rio de Janeiro. O aparelhamento da máquina pública para a corrupção financeira e política é um “fenômeno” bem corriqueiro no País. Mas em ano eleitoral ele se “aflora”. Nos municípios urbanos, a infinidade de obras – necessárias ou não – que se transformam em “instalações temporais de campanha” tornam-se a parte mais visível. Estes espaços, que falsamente se edificam sobre a promessa da melhoria do espaço urbano, precisam do caos para se estabelecer e, de fato, sob qualquer ângulo que se possa analisar, é isso que eles geram: caos urbano.

Como colocar uma lente de aumento sobre a arbitrariedade da construção desses espaços? “Desfazendo esses espaços”. A inspiração em Gordon Matta-Clark foi imediata.

Desfazer o espaço – Gordon Matta-Clark (Nova York, 1943-78) ficou conhecido pelas intervenções feitas em prédios condenados à demolição. Suas intervenções artísticas incitavam as pessoas ao debate sobre a estruturação do espaço urbano. Ele desenvolveu o projeto de desfazer o espaço da arquitetura moderna realizando intervenções metafóricas em edifícios abandonados ou condenados à demolição, com o intuito de questionar sua autonomia e a lógica econômica que impulsionou a expansão da arquitetura, especialmente a americana, após os anos de 1950.

Claro que faltava muita coisa. Inclusive estrutura para ir a fundo num re-enactment desse porte... A Isis me sugeriu fazer algo mais simples, trabalhando apenas a motivação do Matta-Clark. A Aline pensou num monte de intervenções, afinal diferentes espaços nos sugeririam distintas formas de interferência. Trabalharíamos o conceito e teríamos volume, o que traria maior visibilidade e mais possibilidades de fomentar o debate sobre os espaços caóticos em questão, ainda que não tivéssemos como aferir os desdobramentos. A Maria foi prática e coerente. Ela já estava trabalhando em projetos de alteração espacial e, neste momento, pesquisava espaços que contivessem os elementos de sua própria transformação. Ela propôs que realizássemos uma intervenção relâmpago no abandonado canteiro de obras da UFRJ da Praia Vermelha. Tratava-se de um canteiro de obras parado, mas que constantemente recebia material; perto da UNIRIO, onde poderíamos conseguir adeptos à experiência; e em local mais fácil para iniciar a ação, bastando entrar mais cedo como qualquer estudante.

Definindo e organizando a ação – Meu primeiro re-enactment, então, não seria a repetição de uma performance específica, mas a “reconstrução” – vivência e experimentação são termos melhores – de um tipo de prática realizada pelo artista Gordon Matta-Clark (desfazer espaços), utilizando o mesmo conceito dele, o mesmo objetivo dele, mas em âmbito menor.

A performance seria realizada por mim, Maria Luíza Grey e Aline Barcelos – as duas são artistas plásticas e estudantes de cenografia. Nossa desconstrução do espaço se daria num canteiro de obras da UFRJ e seria realizada em uma noite. Um dia antes da intervenção, cada uma de nós, em horários distintos, passaria pelo espaço para, aleatoriamente, por intuição, etc, pensar em materiais de suporte à execução da performance. Precisávamos marcar o dia e uma hora para a nossa desconstrução espacial começar. Definimos que começaríamos e terminaríamos o trabalho juntas. Nos impusemos chegar para a intervenção 30 minutos antes da hora combinada para, juntas, sentarmo-nos de frente para o espaço e, rapidamente, trocarmos impressões e desejos sobre o lugar e a performance. Enfim, escolhemos a data: 28 de setembro, às 22 horas. Não nos propusemos a fazer um registro. O mais importante naquele momento era vivenciar a experiência proposta e sua execução coletiva.

OBS: A conversa que originou a idéia aconteceu na primeira semana de setembro, definimos o que seria feito num encontro que aconteceu uma semana depois e, após uma semana sem nos falarmos, marcamos a data.

A performance

Nos encontramos no local da intervenção na hora combinada. A Maria levou dois amigos que, em tese, comungariam da experiência conosco e, de fato, teríamos mais quatro braços, pois havia muitas pilhas de cimento, tinta, vigas, suportes de aço, tijolos, terra, tábuas etc., enfim, muito a ser feito. Eles nos olharam trabalhar por um tempo e, depois, foram embora.

Suportes – Apenas eu levei. Tesouras, estilete, alicate, chave de fenda, barbante e uma infinidade de fitas de diferentes cores e tamanhos: isolantes, crepes, cintas de alto teor adesivo e afins.

A ação – Quando chegamos conversamos rapidamente... As três olhando aquele espaço que poderia servir para tanta coisa, abandonado há tanto tempo e abarrotado de material de construção, pensamos: um museu... Iríamos reordenar aquele espaço construindo obras emblemáticas daquela situação e que se constituiriam num museu temporário. Nada poderia ser quebrado ou danificado.

Meia noite. Em duas horas fizemos uma instalação no interior do “túnel” subterrâneo que conduzia a escavação das fundações da casa que havia no terreno e uma escultura com lixo, terra, tinta, barras de ferro e caixas d’água. Para utilizarmos todo o material, teríamos de virar a noite e não poderíamos parar. Não é fácil carregar sacos de cimento, virar laje, concretar estruturas e carregar aquelas monstruosas barras de ferro.

Uma hora. Fizemos mais duas obras. Começamos a quinta, terminamos a quinta. Durante a sexta – uma tentativa de espantalho de ferro – eu deixei cair uma placa de ferro sobre uma pilha de latas de tinta... o estrondo foi enorme. A Aline saiu correndo eu e Maria fomos atrás e os seguranças foram vistoriar o local... Nós esperamos um bom tempo enquanto decidíamos o que fazer. Eu queria voltar, Maria também, mas a Aline achava melhor encerrar a intervenção ali: “podemos não ter utilizado todo o material existente em esculturas, mas todo o material foi re-espacializado, ganhou nova dimensão e contexto. “Por que temos de voltar? Por que não ficamos com essa experiência? Ok. Ficamos com ela e com algumas fotos.

Fotos

E assim foi... As fotos abaixo foram tiradas pela Maria e pela Aline por câmeras de celular. Não havíamos pensado num registro para exposição. Este é apenas um registro afetivo e que, com a autorização delas, divido com vocês.

Antes...



Depois...





Análise coletiva e análise individual

Analisando o que fisicamente construímos com o material local, vejo que trabalhamos e/ou construímos nosso museu transitório sobre a ótica do não espaço. Ou seja, ele existia como potência dentro do espaço a ser trabalho, ganhou existência material transitória a partir da desconstrução realizada e, independentemente do tempo de sua duração, o espaço em que se encontrava não deixava de ser materialmente um canteiro de obras. Enquanto o museu estivesse “de pé” suscitaria sim a discussão sobre aquele espaço, sua necessidade, os motivos de sua existência, etc., mas dada a transitoriedade não apenas da execução da obra, mas de sua existência em si, me questiono quanto à reprodução conceitual do Matta-Clark. Ela existiu?

Sim, claro que existiu. Como observa Hans-Thies Lehemann sobre a performance, “o posicionamento performativo não se pauta por critérios prévios, mas por seu êxito na comunicação” e, assim, a própria efemeridade do trabalho torna-se indispensável para a intensidade do seu poder de comunicação.

Faço esse translato sabendo que nossa ação foi tema algumas discussões entre a equipe de vigilância da UFRJ. Alguns acharam engraçado e não viram problema algum, uma vez que o local estava abandonado e que não houve vandalismo. Outros viram “o acontecimento” como sintoma do mau trabalho de alguns profissionais do setor e, também, como necessidade de aumento do efetivo. Quanto aos estudantes e eventuais pedreiros é possível que tenham notado, comentado, discutido, mas não tivemos como aferir desdobramentos.

Em outras palavras, a ação teve êxitos comunicativos. Possibilitamos que a nossa proposta artística juntasse pessoas que, a partir dela, discutiram sua condição de trabalho. De fato, esse espaço relacional já existia, mas, possivelmente, pela mecanização das relações sociais do cotidiano, encontrava-se reduzido. A arte contemporânea, quando se propõe à reflexão política e problematiza a esfera das relações consegue expandir o espaço relacional a partir desta própria dubiedade que ele gera: cria contextos extra cotidianos que favorecem as relações interpessoais em locais onde elas tornaram-se mecanizadas. Sobre a natureza da arte contemporânea que se arrisca num sistema onde tudo é mercadoria Nicolas Bourriaud afirma que “ela cria espaços livres, gera durações com um ritmo contrário ao das durações que ordenam a vida cotidiana, favorece um intercâmbio humano diferente das ‘zonas de comunicação’ que nos são impostas. O contexto social atual restringe as possibilidades de relações humanas e, ao mesmo tempo, cria espaços para tal fim.” – (Disponível em ESTÉTICA RELACIONAL ‘p. 23’, de Nicolas Bourriaud).

Enquanto artistas conseguimos realizar aquilo a que nos propusemos, o que não se deu de maneira estática – e nem poderia –, mas mutante; vivenciada a cada momento de execução de nossa ação, o que permitia que a descobríssemos à maneira que a realizávamos. Assim, percebemos que nossa desconstrução do espaço (sob a ótica do não espaço) foi se delineando num site specific funcional; desconstruímos aquele espaço, mas mantivemos suas características: no tempo e no espaço ele não perdeu a qualidade de canteiro de obras. Nosso ato performativo foi ganhando contornos mais concretos conforme o realizávamos e, enquanto o realizávamos, discutíamos o que estávamos fazendo e, enquanto discutíamos o que estávamos fazendo, nos lembrávamos que algumas desconstruções espaciais do Matta-Clark foram desenvolvidas a partir da proposta de construção de um site specific.

O imprevisível compôs nossa performance o tempo todo por opção, até mesmo na definição específica do conceito, que se fez no processo e não antes. A previsibilidade se deu ao fim, quando, ao invés de irmos para casa ante a opção de parar, sentamos para conversar sobre o processo e sobre a necessidade de refazermos a performance.

Diante da experiência vivida, o presente; o aqui e agora – como em todo ato performático – é elemento fundamental e que, no entanto, é fugaz e impossível “rotular” e conceituar, portanto, como narrativa precisa – absorvido pelas estéticas teatrais ou não – ser experimentado como tempo artístico e constituinte da arte ele próprio. “Nesse sentido de uma presença oscilante e evanescente, experimentada ao mesmo tempo como ausência e como algo que já passou, o presente traça um risco sobre a representação dramática.” – (Disponível em O teatro pós-dramático, ‘p. 240’, de Hans-Thies Lehemann).


Bibliografia

Bourriaud , Nicolas. Estética Relacional, S.Paulo: Martins, 2009.

Lehmann, Hans. Thies O Teatro Pós Dramático, S.Paulo: Cosac Nify, 2007.

Re enactment.mov

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Re-Cria-Ação na coleira



" A arte é um estado de encontro fortuito"

Tenho dentro de mim, no âmago do que me forma, uma insatisfação absurda, uma espécie de vazio que me engole, e que acredito eu, é um dos principais motivos que me torna artista. Andei pelos corredores da universidade à procura de algo que ainda não sabia bem o que era, no desejo de que minha insatisfação com essa " coisa " ( Segundo a definição de Émile Durkhein a respeito dos fatos sociais, para ele definidos como "coisas") não desaparecesse dentro de mim, mas que me servisse de impulso para experimentar e criar em cima disto através do sensível que é inerente ao ser humano, mas que por vezes é mecanizado e padronizado segundo as condições socias e comportamentais em que somos brutalmente inseridos. Eu queria (e continuo querendo) mais da minha arte, desejava ( E continuo desejando ) afetar e ser afetada Deleuziosamente* através da minha arte, de sua subjetivadade, por intermédio do que é sensível, e esperava da academia, algo próximo ao alimento da minha fome. " Em contrapartida, a academia - assim como os congressos , reuniões científicas, encontros e demais atividades voltadas ao fomento, divulgação ou discussão das pesquisas desenvolvidas por artistas-pesquisadores - deve cuidar por não limitar, com regras demasiado rígidas, a liberdade formal e conteudal em que se apresentam os estudos práticos em arte, sob o risco de pasteurizá-la pela forma ou pela abordagem temática, e reduzir a possibilidade de criação de potência e sua influência a novos acontecimentos em arte e pesquisas acadêmicas.( Anti-Artigo ou Artigo para a diferença -Diego Baffi)" Só consegui , me livrar das "rédeas acadêmicas", quando puxei as disciplinas de ATAT e a prática paralela do treinamento para o performer, após ter feito ATT com a Tânia Alice, e ter aberto uma brecha da porta, onde por trás dela, ainda meio tímida, pude ter uma ideia do que é performance. Política, subjetiva, poética, estética, relacional, dentre outras coisas, a performance permite ao artista habitar " (...) as circunstâncias dadas pelo presente para tranformar o contexto da nossa¹ vida ( nossa¹ relação com o mundo sensível ou conceitual) num universo duradouro". Uma questão de "aprender a habitar melhor o mundo" sem construir ideologias, nem utopias, construindo apenas um outro modo de existir, um outro modelo dentro dessa realidade que já existe... Seja essa realidade, qualquer realidade vista pelos olhos do artista ... Isso, era o início do que eu estava buscando. Em um outro momento, momento já da re-criação, me "deparei" com Valie Export passenado com Peter Weibel amarrado por uma coleira, de quatro como um cachorro, pelas ruas. Um vínculo foi gerado naquele momento! Com tremendo poder de reliance², signos, ícones, siglas, símbolos, bandeiras, logomarcas, e tudo que vinha das imagens que eu via, me diziam algo (subjetivo demais, mas gritavam, eu dava importância ou não, mas eu ouvia!) E aquela imagem, instaurou entre mim, Peter e Valie uma proximidade, estreitando o espaço da nossa relação, que acabara de surgir, naquele espaço/tempo fora do cotidiano, no cenário da cidade, cada um com sua subjetividade, mas uma elaboração coletiva do sentido. Tinham outras pessoas também, obervando aquele instante que ia passar em algum momento, que também faziam parte dessa nossa relção. A arte de Peter e valie, ia sumir no tempo, restando apenas o registro, mas naquele instante presente, todos ali habitamos um mundo em comum, uma criação a partir uma estética relacional, derivada desse nosso encontro fortuito. Eu fui afetada, e quis afetar. Encontrei uma performance que gostaria de reproduzir. Eu convidei um amigo querido, que também é ator: André Siffert, para a "Re-criação" desa performance. Escolhemos como cenário: a "Calçada da fama", uma rua bastante populosa da cidade de Teresópolis onde o comércio é grande ( Escolhemos Teresópolis para experimentar a construção desse trabalho em uma cidade pequena, que começa a acordar artísticamente agora, por muito esforço dos seus respectivos artistas). Queríamos de alguma forma, interagir com o quadro capitalista inserido pelo Sr. Papai Noel aos transeuntes e lojistas presentes naquele espaço, onde as pessoas passam, compram e voltam para as suas vidas privadas, muitas vezes até esquecendo de desejar um bom dia ao funcionário que os vendeu, ou vice-e-versa. Por isso, eu, que fui carregada na coleira, ou seja, estava representando a "classe oprimida" por esse tipo de consumo (Traçando um breve paralelo com Augusto Boal ), usava como símbolo, um gorro de Papai Noel. Essas imposições tradicionalistas costumam me causar dor! Sempre me incomodou a distância que esse sistema coloca entre as relações humanas e a forma com que lidamos com os afetos hoje em dia, de maneira muitas vezes fria, dolorida, semelhante a um corte abrupto ao que temos de mais humano e sensível dentro de nós. " A mecanização geral das funções sociais reduz progressivamente o espaço relacional". Eu quis mostrar essa dor, e quis também inserir a perda da identidade por intermédio dessa mecanização das coisas, por isso, coloquei sobre o rosto, faixas daquelas que colocam sobre as fraturas, nos hospitais. Sem voz, calava-me uma fucinheira. E o André, desfilava comigo pela rua com um terno e uma gravata, observando as vitrines, vendo as matérias das revistas e jornais nas bancas. Não era uma imagem agradável aos olhos, e eu senti que muitas pessoas ficaram realmente chocadas com o que viram. De acordo com a leitura que faziam, muitas pessoas ficaram perturbadas. " A função crítica e subversiva da arte contemporânea agora se cumpre na invenção de linhas de fuga individuais ou coletivas, nessas construções provisórias e nômades com que o artista modela e difunde situações perturbadoras". E era isso que fazíamos, traçávamos nossa linha de fuga embasada na nossa realidade, na verdade que tínhamos diante daquelas lojas e produtos. Mas não dizíamos nada com nossas bocas. O André, eventualmente dava um boa tarde a alguém, mas nada além disso. Muitas pessoas fizeram uma leitura acerca do machismo, aceitamos quando nos propusemos a olhar de fora (Sabe-se que é necessário ter um olhar interior e outro exterior acerca desse tipo de trabalho), pois lidamos com questões subjetivas, e a performance de Valie e Peter me sugere também uma ação feminista, portanto, tudo isso nos coube muito bem. Se de fato, ainda existe um machismo irracional, que as pessoas vejam então, que se sintam incomodadas se esta for a sua forma de reação. O que queremos é que sintam, se relacionem, que percebam, que comentem, que se desloquem, que problematizem... Assim como nós. Cada um com sua subjetividade, afetando e se deixando afetar. Gostando ou não, apoiando ou não, éramos um bom quadro, e conseguimos condensar naquele instante uma emoção que o espectador deveria viver e prolongar. Por mais que alguns não compreendessem e achasse aquilo tudo uma falta de melhor aproveitamento do tempo, ninguém retirava o olhar da nossa imagem. Ao fim da performance, uma mulher nos surpreendeu. Ela estava com raiva, se dizia constrangida. Disse-nos que enquanto mulher se sentiu ofendida ao assistir o nosso passeio, e como já não estávamos mais performando, eu, enquanto artista, tentei lhe explicar e ela sequer me deu ouvidos. Ela usava um tom de voz agressivo, e gritava coisas como : - Isso não é arte! Não pode ser! Arte é coisa fina! Se eu quisesse ver algo assim, eu pagava para ir ao teatro e assistia, mas, na rua... Na rua vocês não podem fazer isso. Não têm esse direito!
"Se a opinião pública tem dificuldade em reconhecer a legitimidade ou o interesse dessas experiências, é porque não se apresentam mais como prenúncios de uma inexorável evolução histórica: pelo contrário, elas se mostram fragmentárias, isoladas, sem uma visão global do mundo que possa lhes conferir o peso de uma ideologia. Não foi a modernidade que morreu, e sim sua versão idealista e teleológica"." Agora ela (A arte*) se apresenta como uma duração a ser experimentada, como uma abertura para a discussão ilimitada." E era isso que queríamos, atingimos o nosso objetivo, inauguramos uma discussão acerca do que acontecia naquele instante em frente as lojas. Tempo mais tarde, ideias mais esclarecidas, um outro entendimento a respeito do que fizemos, dei-me conta de que havia exagerado um pouco nos objetos, acredito que não precisava da faixa, nem da fucinheira, que eram signos demais e que pode ter ficado um pouco confuso, e também, que a imagem poderia ser diferente caso eu convencesse o André a ir na coleira... Podíamos até alcançar melhor as questões acerca do Natal, do consumismo característico dessa época, e da "falsa aproximação" das pessoas nesse período. " A arte contemporânea realmente desenvolve um projeto político quando se empenha em investir e problematizar a esfera das relações". Queremos outras trocas, mais afetivas, mais humanas, mais sensíveis... É isso que propunhamos, de acordo com o inteligível que nos coube. A arte contemporânea apresenta modelos possíveis, livres de ideologias e utopias, apenas modelos possíveis a realidade que está aí, formas de habitar esse mundo. Outras relações, não-cotidianas, não-mecanizadas, se criam a partir de então. Como definem Deleuze e Guatarri " (...) a obra de arte como um bloco de afetos e perceptos: a arte mantém juntos momentos de subjetividade ligados a experiências singulares (...)" Considerando tudo isto, fizemos o melhor que pudemos. Nos entregamos ao trabalho, e seguimos. Hoje, eu sei que o caminho ainda é longo, e que uma vez meus olhos abertos, uma vez percebido o mundo dessa forma, nada será como antes. Performance como arte da vida real, assim que eu vejo. Se é isso mesmo ou não, dispenso o certo e o errado, fico apenas com o que já tenho sem limitá-lo a conceitos cristalizados. Quero estar aberta as relações.

Bibliografia:
BORRIAUD; Nicolas; A estética relacional;
MELIN; Regina; A performance nas artes visuais
BAFFI;Diego; Anti-artigo ou Artigo para a Diferença

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sente-se à vontade

video


“O jovem sorri na tela enquanto ela dura. O sangue lateja sob a pele deste rosto de mulher, e o vento agita um ramo, um grupo de homens se apressa em partir. Num romance ou num filme, o jovem deixa de sorrir, mas começará outra vez, se voltarmos a tal pagina ou a tal momento. A arte conserva, é a única coisa no mundo que se conserva.”[1]

A arte se conserva à medida que ela recria, que gera novos olhares, novas possibilidades de relação com o mundo. A arte contemporânea, mais do que nunca, se preocupa em recriar a relação do homem com o mundo, a cada momento que ela é experimentada.

Dessa maneira, a experiência se torna elemento fundamental para a reflexão sobre arte atual. Sobretudo na performance, expoente de sua potencialização, e nosso principal objeto de estudo.

Segundo Bourriaud devemos aprender a habitar melhor o mundo ao invés de tentar construí-lo a partir de idéias previamente concebidas. “O artista habita as circunstancias dadas pelo presente para transformar o contexto de sua vida (sua relação com o mundo sensível ou conceitual).” Dessa maneira, busquei re-encenar uma performance que acredito ter potencia na função de transformar um dado contexto : as relações intersubjetivas no campus da Uni-Rio. Relações estas que na minha percepção obedecem cada vez mais a padrões, que esvaziam sua intensidade e potencialidade. É como se essas relações também tivessem sido atingidas pela sociedade do espetáculo da qual fala Guy Debord : uma sociedade em que as relações não são mais diretamente vividas, mas se afastam em sua representação espetacular.

Minha experiência com esse re-enactment me permitiu constatar a possibilidade de uma estética relacional, uma arte que lida com novos conceitos de forma, de estética e de mundo.

Entender a arte como criadora de novos valores transferíveis para a sociedade, redimensiona sua função anterior estipulada pelo projeto moderno de apenas representá-los. A partir do momento que a pratica artística se torna um campo de experimentações sociais, é possível construir e reconstruir relações. A partir da minha experiência, pude de fato aprofundar vínculos com pessoas, que anteriormente eram apenas formais. E o mais interessante é que, na maioria dos casos esse vínculo foi criado sem a interferência da linguagem oral.

Entramos então numa outra zona de interesse: a dificuldade de se relacionar por meio do olhar, de permitir uma troca que atravesse também o corpo, que se imponha de maneira menos superficial, que supere os códigos, que seja real, que surja do momento da relação.

O silêncio da performer era o elemento causador de mais desconforto. Como se a linguagem não deixasse a relação atingir uma zona de insegurança, mais íntima e mais potente que pertencesse somente ao corpo. Segundo Lehmann: “O artista performático (com freqüência uma mulher) organiza e realiza ações que afetam o próprio corpo. Na medida em que seu corpo não é usado somente como sujeito do manuseio, mas também como objeto, como material significante, anula-se o distanciamento estético tanto para o próprio artista quanto para o público”. Dessa maneira, a presença do performer e sua entrega física se tornam um material estético fundamental, à medida que seu corpo é também significante e se re- significa, no meu caso, a cada pessoa que se sentava em minha frente.

Dessa forma fica clara uma diferença essencial entre teatro e performance : o primeiro não busca transformar a si mesmo, busca transformar uma situação e algumas vezes o público, por meio, freqüentemente do efeito de catarse. A performance por sua vez é constituída de um processo real, que impõe emoções tanto ao performer quanto ao espectador e que acontece no aqui, agora.

Todavia, a arte performática não tem uma forma no sentido clássico da palavra. Ela não resulta em um objeto nem em um contorno que se oponha a certo conteúdo, mas da mesma maneira que as outras expressões artísticas, ela também tem a propriedade de se conservar. Segundo Deleuze uma obra de arte é um bloco de sensações: ela possui afectos e perceptos próprios, independentes do criador e daqueles que a experimentam. Acredito que a performance escolhida por mim para ser reencenada, possui propriedades individuais que não se conservam meramente numa forma mas em seu bloco de sensação. Este é reativado quando a performance é reencenada : “as sensações, perceptos e afectos, são seres que valem por sí mesmos e exedem qualquer vivido” .

Concluo então que o ato de reencenar uma obra, recria, recontextualiza , traz novos questionamentos a um novo espaço-tempo. No entanto conserva o bloco de sensações particular da obra,que é reativado no momento do re-enactment.Este não se torna uma mera representação da performance original e sim uma re experimentação, a medida que o performer não interpreta um papel, vivencia-o de fato. Esse bloco está na ação, pertence a formação da performance. Formação essa que, segundo Bourriaud, seria o termo mais apropriado quando queremos nos referir a forma na arte contemporânea: “ao contrário de um objeto fechado em si mesmo graças a um estilo e a uma assinatura,a arte atual mostra que só existe forma no encontro fortuito, na relação dinâmica de uma proposição artística com outras formações, artísticas ou não”. Sendo assim, a re-apresentação de uma performance se torna então um ser de sensação, existindo em si mesma e em toda a sua formação.

Bibliografia

Bourriaud , Nicolas. Estética Relacional, S.Paulo: Martins, 2009.

Lehmann, Hans. Thies O Teatro Pós Dramático, S.Paulo: Cosac Nify, 2007.

Melim, Regina. Performance nas Artes Visuais , Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Cypriano, Fábio. “Performance e Reencenação: uma análise de Seven Easy Pices de Marina Abramovic” in http://idanca.net/

Debord, Guy. A sociedade do Espetáculo

Deleuze e Guatarri. O que é a filosofia. Rio de Janeiro: Ed.34, 1992



[1] Deleuze,G e Guattari,F. O que é Filosofia, S.Paulo: Ed.34,1992, p.213.