segunda-feira, 14 de junho de 2010

Pássaros e Gente ou Água e Gente de Paulo Nazareth





























Re-enactment de “Pássaros e Gente” de Paulo Nazareth.

A idéia de “refazer” Pássaros e Gente me motivou a partir dessa entrevista de Paulo Nazareth em um festival de performance em Belo Horizonte :

       “ Quantas vezes já usei a palavra, “ acho, penso , acredito” ? Agora vou usar creio, bem acho que deve fazer parte da entrevista! Então creio que o corpo está presente o tempo todo em qualquer trabalho, se faço um desenho, gravura, escultura, etc , o corpo está ali , não tenho como me desvencilhar dele, eu sou corpo e ele é minha primeira ferramenta de trabalho, uso os olhos para apreender uma imagem reelaboro-a e uso as mão para recriá-la com auxilio de um ‘contenedor’ de tinta, um lápis ou caneta. O que talvez diferencie a “performance” é que no ato da exposição o corpo está ali presente , diferente de outra forma de arte visual em que podemos nos desligar do corpo (ao) vivo. Gosto de estar inserido dentro da “obra” por que nesse momento ela é viva e eu gosto de estar vivo. Não sei como essas coisas de silencio e grito se relacionam exatamente , mas talvez um faça parte do outro, o silêncio pode ser tão estrondoso quanto um grito e em meio a um grito pode haver o silêncio. Será que isso parece qualquer a ver com “o Mestre dos Magos” da “Caverna do Dragão” ? Ou Paulo Coelho ? Outro dia um amigo me lembrou que sempre tínhamos uma lição de moral ao final dos episódios de He-Man .”

Diante das inúmeras possibilidades de “refazer” uma performance, não vi nada que realmente me motivasse nem pela forma, pelo contexto, pela estrutura, intenção, ou pelo seu objetivo. Algum tempo depois tive contato com essa entrevista anexada ao vídeo da performance “Passáros e Gente” de Paulo Nazareth.
Paulo Nazareth um dos nomes contemporâneos da performance brasileira, nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais, começou seu trabalho com “ Paulo Nazareth Arte Contemporânea e Edições Limitadas”, uma espécie de empresa/entidade que está por trás de suas obras. Um dos traços principais de sua obra é o fato dele, como artista, apontar sempre para a afirmação de que a Arte está em todos os lugares e coisas e pode ser feita por qualquer pessoa. Inclusive em alguns trabalhos o espectador é a própria obra, o que nos amplia ainda a idéia de participação.
A busca pela vida do artista foi extremamente difícil, pois apesar de muitos registros de suas performances, existe pouco material de sua história, como era inicialmente etc.
Tive contato então com o vídeo “Pássaros e Gente”, uma performance feita em Belo Horizonte onde o artista anda pela rua com uma gaiola na cabeça com um pássaro vivo dentro. Em “Pássaros e Gente”, Paulo tinha o objetivo de criar um espaço de relação anticonvencional, questionando a liberdade no espaço urbano.
A partir do objetivo do artista, optei por “refazer” a performance de Paulo, “resignificando” a forma e a questão, e mantendo o objetivo do mesmo.


RE-ENACMENT:
         “As coisas nem sempre ocorrem como planejamos e acho maravilhoso que por mais que queiramos não temos o controle dos acontecimentos, talvez eu me alimente dessas coisas , desses fracassos diários … fracassos enquanto tentativas de controlar o cotidiano … sei lá acho que todo dia é diferente mesmo parecendo igual …”   (Entrevista de Paulo Nazareth  para Brígida Campbell)


É a partir dessa fala que pretendo discorrer sobre meu “Sucesso fracassado” ao (não) realizar a performance “Pássaros e Gente”.
Com a proposta de “resignificar” a forma, troquei a gaiola por um aquário, e o pássaro por um peixe, e fui andar dentro de um shopping da zona sul. Eu questionava não mas a “liberdade no espaço urbano” ( como o questionamento de Paulo) mais sim um modo de subverter as relações tradicionais que ali eram estabelecidas, dentro daquela “caixa”, daquele “bloco” de pessoas formais que existe dentro de um shopping. Mas ainda mantendo o objetivo do autor da performance de criar um espaço de relação anticonvencional.
Bom, ao chegar no shoping com o peixe na mão, carinhosamente batizada de Tânia Alice, fui até o banheiro com uma amiga e já fomos enxotadas por uma mulher que trabalhava no shopping com a seguinte frase: -Se vocês querem trocar a água do peixe tem que ser lá em baixo, no subsolo, aqui não pode!
Fomos então as três para o subsolo do shoping. O lugar era onde se descarregava o lixo do shopping, onde as faxineiras almoçavam e lavavam roupa. O lugar era cinza e todo de concreto, e tinha xorume por todo o chão.
Ao chegarmos no subsolo começamos finalmente o processo (longo) de encubar a minha cabeça. Logo quando começamos, uma mulher parou o que estava fazendo e ficou observando, sumiu logo em seguida e voltou o segurança: - A moça falou que você tá matando a menina! Ela vai ficar aí dentro?
Minha amiga respondeu: - Vai sim, eu não tô matando ela não. Você pode tirar uma foto?
-Posso sim! ( respondeu o segurança)
O segurança bateu a foto a saiu, nos deixando sozinhas, e em menos de três minutos depois apareceu um trabalhador que tava varrendo o chão pra ver, depois outro homem, depois duas mulheres, depois uma senhora, outro homem, outra mulher...aproximadamente vinte pessoas pararam o seu trabalho para ver o que seria aquilo. Um bloco de pessoas estava formado na minha frente todos me observando e falando entre si. Uma única voz que nos foi dirigida em quase trinta minutos de preparação para a performance foi: - Esse peixe vai entrar aí, no rosto dela? Balancei a cabeça indicando que sim. Então, após esse longo processo, chegou a hora de colocar a água no aquário ( as vinte pessoas ainda estavam ali, vidradas no que acontecia), abaixei meu corpo e minha amiga foi colocando a água que foi escorrendo pelo meu pescoço e me molhou inteira. Imediatamente três pessoas correram até mim, pegaram a fita da mão de minha amiga e começaram a colar em volta do meu pescoço para a água não escorrer. Quero deixar claro que as pessoas não sabiam o que eu iria fazer com aquilo, elas simplesmente se lançaram a frente do meu corpo e prenderam fortemente meu pescoço para a água não escorrer. Um homem diz: - Tem que colocar um isopor para não vazar água, o isopor vai vedar direito. O outro homem diz: -Eu vou ali do outro lado buscar, espera um minutinho. Uma mulher : -Tá tudo bem aí dentro? Fica bem, vai dar tudo certo.
E foi essa frase que me emudeceu durante o resto do trabalho e do dia. Aquelas pessoas  se compadeciam comigo! Aquelas pessoas se reconheceram no meu fracasso!
Eu diante de toda essa ação que estava ocorrendo, estava muito chateada com o fracasso da minha primeira performance, eu não tinha me dado conta que todo o espaço estava a meu favor, toda a intervenção, todo o questionamento, estava tudo alí. Toda a atmosfera que eu buscava no meu programado ato de sair pelo shopping com um aquário na cabeça já estava criada.  O olhar das pessoas estavam voltados para mim, o olhar de quem se compadecer com a derrota do outro. O espaço anti-convencional ( objetivo de Paulo em “ Pássaros e Gente”) foi criado. O meu questionamento de subverter as relações tradicionais estava criado sem que eu percebesse ou esperasse. Foi uma das experiências mais incríveis da minha vida! Eu tive uma aula de relação humana!
 Enfim, esperando o homem vir com o isopor para me dar e a faca, tive toda essa fusão de
 pensamentos e achei dispensável sair andando pelo shopping. Mais ainda tentamos, eu, minha amiga e as três pessoas, vedar o aquário de alguma forma. Ainda assim, “fracassamos”.
Talvez todo meu objetivo, meu  questionamento, minha motivação, minha intenção, acho que tudo isso só foi atingido porque eu falhei, ou não também. O que eu tenho certeza é que a experiência em que eu vivi naquele ambiente, o olhar daquelas pessoas, isso sim, isso nunca seria atingido em espaço formal de um shopping. Talvez, se eu “fracassasse” na praça de alimentação, se meu aquário caísse no meio do piso, uma mulher - a mesma que estava no subsolo comigo, que perguntou se estava tudo bem, talvez ela me olhasse, talvez me reprovasse, talvez somente limpasse o chão, e eu nada atingiria naquela vida cotidiana.


Bibliografia:

-O Teatro em Diálogo com outras linguagens-
Novos Sentidos de Novo.
Ana Kfouri
-O Teatro Pós Dramático-
 Hans-Thies Lehmann
-Mobilidade no Contemporâneo. Os espaços da performance-
Lucio José de Sá Leitão Agra
-www.ceia.art.br-
-www.artecontemporanealtda.blogspot.br-

Plantando bandeirinhas em “cocôs de cachorro” no Flamengo – reprodução do “Mission Drapeau-Crotte”

Meu trabalho começou com um problema, não me sentia à vontade em reproduzir uma performance, simplesmente porque nenhum trabalho com o qual tive contato me instigou a motivação que tanto esperava. Quando assisti ao vídeo de iniciativa de um grupo, que para chamar a atenção para o problema de excesso de “cocô de cachorro” nas ruas de Paris, plantam bandeirinhas em cada um que encontram pelas ruas. O vídeo não se propõe a uma ação artística, mas a discussão acerca desse caráter se mostrou interessante e então, a partir desta iniciativa e articulando com outras discussões em sala, sobre a utilização que fazemos do espaço público -não apenas como artistas, mas também seres sociais- percebi que a ação deste grupo me estimulava à Ação.
A experiência:
Confeccionei bandeirinhas vermelhas escritas com as seguintes frases:
“Atenção! Utilização do espaço público”
“Essa é a sua casa.”
“Fique à vontade”
“Goooool”
Saí pelas ruas do Flamengo e logo encontrei os nossos dignos “cocôs de cachorro”, e na primeira bandeirinha já recebi resposta dos passantes. Essa ação chamou a atenção das pessoas, que formularam as mais diversas explicações para o que eu estava fazendo.
Algumas situações:
A primeira manifestação consistiu na frase: “Tinha que matar todos os cachorros!” que teve como resposta: e se matássemos os donos dos cachorros, que não tiram a sujeira de seus “animaisinhos”?

E então ele disse que eu estava fazendo era um ótimo trabalho e ao perguntá-lo o que achava que era, ele respondeu: “Ué! Não é pra um jornal?”
Uma senhora com um cachorro perguntou se eu tinha levado para a rua “aquilo” no qual eu plantava as bandeirinhas, já que eu não usava uma luva para colocá-las.
Uma terceira situação foi muito interessante, dois passantes, pararam, mas não quiseram ser fotografadas e então começamos a conversar e um deles disse que quem tem cachorro deveria pagar um imposto por isso, e que esse imposto seria revertido para a manutenção da fiscalização. E terminou dizendo: “isso que você tá fazendo, é arte” – Essa manifestação me interessou, não por que alguém estabeleceu aquela reprodução de uma ação, como arte, mas sim porque houve um reconhecimento do gesto, e também apenas isso, pois ficou surpreendido quando eu disse se tratar de um trabalho para a faculdade de teatro, o que me remeteu imediatamente à nossa discussão em sala a respeito da validade do vídeo original enquanto arte e à reflexão acerca da questão sobre quem estabelece o valor de arte a uma obra ou ação.
O caráter desse trabalho para mim consiste na relação que acaba por se estabelecer com quem passa, mas é importante ressaltar como as pessoas sempre pensam que este tipo de ação está ligada a uma instituição que combate alguma coisa errada, é difícil vislumbrar como uma ação isolada, de uma pessoa que possa ter uma motivação outra. Durante o contato com os passantes foi possível perceber os inúmeros desdobramentos que esta ação pode ainda revelar. Ao lembrar os relatos em sala de aula sobre como os passantes se manifestam, Cut Peace da Júlia, Meditação dos Heróis do Cotidiano, “O Gelo” da Laura, dentre outros, podemos perceber que essas ações, podem se revelar como intervenções políticas no espaço público.
Aqui revelo o que significou essa experiência, que terminou por expressar as questões que pareciam me impedir de reproduzir alguma ação performática e sendo assim, decidi dar continuidade ao trabalho e convido a quem quiser participar!


REENACTMENT DE: Verônica Fernandes

From the Underdog File - por Lorrana Mousinho












Experienciando From the Underdog File

O feminismo, corrente ideológica que luta especificamente pelos direitos das mulheres, a partir de 1968, viu suas questões e inquietações novamente colocadas em discussão.

Mulheres reunidas em grupos, inspiradas pelas revoluções protagonizadas por estudantes, começaram a trabalhar na reconstrução de sua imagem e condição.

Waltraud Lehner, como originalmente se chama VALIE EXPORT, construiu em 1967 esse logotipo para substituir seu nome original. Pode ser traduzido como uma espécie de ticket de exportação, e contém em si, toda a capacidade de sintetizar uma das principais questões levantadas pela artista: A mulher como objeto de consumo(tanto da cultura superior quanto da doméstica).

Em parceria com Peter Weibel, como se pode verificar no livro performance nas artes visuais, de Regina Melim, desenvolveu o cinema expandido. Weibel mostra as condições ideológicas e tecnológicas da representação cinemática, investigando e criticando os mecanismos de tipos de mídia variados. Questionando a arte como objeto de consumo, e as estruturas de poder, que regem sem serem percebidas, nossos complexos de linguagem.

From the Underdog File, foi uma performance feita em 1968 pela dupla VALIE EXPORT e Peter Weibel. Nela, VALIE caminha pelas ruas de Viena levando numa coleira seu parceiro Weibel.

Pode-se verificar toda a questão da inversão de papéis entre homem e mulher. Esta, supostamente submissa, passa a adquirir outra postura, na qual também se torna capaz de subjugar o homem.

Portanto, para desenvolver meu re-enactment, preservei da performance original as relações de dominação estabelecidas, a utilização do espaço público na sua execução, e o símbolo da coleira. Na tentativa de passar esses elementos para um outro contexto, uma outra realidade, que não a do feminismo de 1968, mas sim a das relações entre figuras políticas e a população em 2010(o que inacreditavelmente não é exclusivo do ano de 2010, pois se esse mesmo re-enactment fosse feito a anos atrás essas relações continuariam praticamente as mesmas).

Eu, Lorrana Mousinho, com o auxílio de mais uma atriz Raphaela Tafuri, criamos uma fictícia figura política: Ivonete. Preparamos panfletos de divulgação, com foto, nome, número e pretensões políticas, criamos até jingle.

Presa pela coleira encontrava-se uma palhaça, representante da população como um todo, além de um questionamento sobre as condições as quais a classe artística é submetida.

Realizamos a performance em frente a câmara dos vereadores, na Cinelândia, no ônibus, durante todo o caminho para a UNIRIO, e finalmente em alguns segmentos da faculdade.

Por falta de meios para chegar na Cinelândia já utilizando roupas e maquiagem, tudo teve de ser feito no local. Então, decidimos assumir tal fato e nos sentamos no “Bar amarelinho”, com nossasroupas do dia a dia.

Todos no bar estavam concentrados na televisão, assistindo a um jogo do Brasil, mas aos poucos as atenções foram se desviando para nossa mesa, e para a minha roupa de palhaça, a cada elemento que colocava, sentia que mais pessoas olhavam e cochichavam, outras riam,outras fingiam que não estavam vendo, os garçons riam, um perguntou se era isso que nós fazíamos, se nos sentávamos nos lugares para nos transformar.

Depois de tudo pronto, no próprio local iniciamos a distribuição dos panfletos, e lentamente nos encaminhamos para a frente da câmara. O sol estava quente, e as pessoas passavam rápidas e agitadas, a grande maioria fingia que não estava vendo,uma vez que estávamos nos contrapondo a um fluxo pré-orquestrado, outras faziam questão de olhar torto como se estivéssemos fazendo algo muito errado. Ivonete pedia que a palhaça a anunciasse e em troca dava-lhe biscoitinhos, quando a palhaça cansava Ivonete a obrigava a se mover. Houve algumas brincadeiras maliciosas de homens que passavam por causa da posição em que me encontrava(quatro apoios), assim como momentos curiosos, um homem que recebeu o panfleto, de fato acreditou que Ivonete era uma candidata, e perguntou porque ela me tratava daquele jeito, e que ela tinha que mudar sua postura, que ele votaria nela, se essa prometesse mudar de conduta. Muitas pessoas olhavam para mim e diziam: “Essa aí ta representando o povo” , ou “Esse é o funcionário público”, ou ainda “Aí você, fulano” apontando uns para os outros; um homem tirou o chinelo para me bater, também apareceram crianças. Como Lehmann aponta, na performance oespectador deve mobilizar sua própria capacidade de reação e vivência a fim de realizar a participação no processo que lhe é oferecido. A sua tarefa não é mais a reconstrução mental.

No ônibus foi praticamente o mesmo, só na UNIRIO foi diferente, acho que pelo fato das pessoas estarem acostumadas com esse tipo de manifestação. Todos que paramos foram receptivos, pouquíssimos estavam com um ar meio desconfiado, mas ainda assim receptivos.

Acho que aqui é um bom momento para falar a respeito do espaço de performação proposto por Regina Melim. Quando terminou o dia estava um pouco perdida, uma vez que no palco, o espaçoque vai ser ocupado, e as relações que vão ser estabelecidas com a platéia são muito claras(na grande maioria das vezes) e definidas. Enquanto na performance, pelo que compreendi, qualquer lugar pode ser espaço de performação, desde que crie uma estrutura relacional, e todo tipo de relação social pode ser estabelecida, o que também é discutido por Bourriaud. Além do que, a performance,como foi citado em sala, é inclassificável, e gera coisas que você não controla, e nem pode controlar.

A partir da presença provocante do homem, como diz Lehmann, e da performance como provocadora dessa presença, procuramos questionar o descaso dos políticos brasileiros para com sua população, e sua classe artística, assim como os empreendimentos paliativos de resolução de problemas em detrimento de uma medida mais eficaz. Através de From the Underdog Filede VALIE EXPORT e Peter Weibel, fomos conduzidas para essa incrível experiência, e assim como Fábio Cypriano escreve sobre manter as performances vivas através não só de documentos, mas também por meio da própria reencenação, espero que de alguma forma tenhamos contribuído para isso.


postagem de eduardo

Dúvida em vários momentos. Foi esse o resultado gerado pela troca da minha inscrição na disciplina de CTE (Critica Teatral Ensaistica) pela disciplina de ATAT (Analise de Temas e Autores Teatrais), em uma expectativa de analalisar algum autor pós dramático. Minha espera nessa troca era realizar um outro curso com uma professora que tinha passado um conteúdo de forma bem interessante.  Só que pra minha surpresa a nova matéria seria sobre perfomancer. Logo de cara optamos por não definir o que seria uma  perfomancer. O Curso trataria de “apenas” de  propor uma vivência/descobrimento/realização dentro deste território múltiplo e que teríamos que apresentar de certa forma uma “reedição” de uma perfomancer distante temporalmente da gente. Neste processo acabaríamos por descobrir uma série de questões a respeito de recepção, resignificação  entre outras coisas.
A escolha de qual perfomancer eu gostaria de realizar foi difícil e cheia de dúvidas. Meu parâmetro de escolha foi a concepções eu buscava alguma prática de contato de forma a provocar alguma cosia nas questões de interações sócias, buscando novas formas de diálogos e apropriações para com o campo do domínio público.Dentro disso foi uma processo estafante, não conseguia achar uma que eu gostasse ao ponto de querer me “Apropriar” e dialogar com ela.  Resolvi escolher uma perfomancer sobre a discussão do que seria arte ou não de acordo com a subjetividade dos indivíduos. Para minha infelicidade e futura felicidade houve um certo “veto branco”, já que a original dela era muito recente. Isso me colocou novamente na dinâmica de pesquisar sobre o tema nos textos, internet e outras mídias. De repente uma perfomancer, que eu não tinha notado,  me chamou uma atenção: através de cartões  que apontavam e norteavam caminhos não estabelecidos  para no final ser entregue uma rosa.
Dentor dessa perfomancer uma possibilidade se abriu pra mim!? Por que não simular uma ação de fazer o mapa e oferta uma gentileza. Por que não entrar em uma comunidade em conflito para fazer a entrega da rosa. Por que não  mentir sobre a mesma e entrar na argumentação da perfomancer como hipertexto ou de que o presente é apenas uma construção do passado. Aos poucos estas três opções forma caindo, uma dadas a dificuldade e o risco de praticá-las outra pela necessidade da vivência.  Aos poucos minha decisão foi ganhando o contorno da entrega de um papel tipo A4 tendo do lado de fora a indicação de um caminho e/ou um sentimento e do lado de dentro uma música de Noel Rosa (brincando com a idéia da entrega da rosa). A do onde realiza-la foi a festa junina da cidade de Itaguaí no dia 11 de junho (um dia antes do dia dos namorados). A escolha de uma cidade que não Rio de Janeiro foi importante para mim, eu não queria realizar meu trabalho onde as pessoas já tivessem um extremo conhecimento do mesmo (principalmente numa “comunidade” de artistas), antes buscava como já disse uma forma de interação não usual dentro da circulação urbana. Infelizmente neste dia choveu e muito nesta cidade. Dada essa circunstância adiei o meu trabalho pro dia 13  mantendo as mesmas mensagens e incluindo uma sobre separação, na qual a música de Noel Rosa era o “Ultimo Adeus”.
Com os papeis em mão fui distribui-lhos. Uma hora depois consegui:
- uma pessoa que eu segui e realizou uma declaração a uma desconhecida (esse eu consegui observar);
- (acho) que uma cantada;
-alguns curiosos;
-um senhor que guardou para um momento especial o momento de separação;
- passar a dúvida de minha cabeça para a cabeça de alguns.
No fim um saldo de dúvida, construções e debates se apliaram em minha cabeça e outras coisas aconteceram na cabeça daqueles que receberam a “rosa”.

Inversão

Após ler o livro de Regina Merlin, “Performance nas Artes Visuais” queria fazer uma ação orientada para a fotografia, por já trabalhar como fotografa me identifiquei.

A vontade de fazer o re-enactment da obra de Sophie Calle intitulada ‘Suite Venitienne/Please Follow Me’ começou após assistir o vídeo ‘Contacts’ em que Sophie conta de onde surgiu a idéia que resultou no livro.

De volta a Paris após sete anos fora ela se sentia perdida, sem amigos e sem ter o que fazer Sophie então passa a seguir estranhos para ver o que eles estavam fazendo, com que se ocupavam quando não estavam trabalhando, e para onde iam.
Um dia após alguns minutos seguindo um homem, ela o perde em uma loja de departamento. Na mesma noite porem Sophie encontra o mesmo homem que seguira pela manhã em uma galeria. Tomando esse reencontro como um sinal e ouvindo sobre os planos que o homem tinha de viajar para Veneza, ela decide comprar um bilhete de trem e segui-lo, ao contrario de sua idéia inicial em que Sophie seguia estranhos por algum tempo até perde-los, ela se torna obcecada por esse homem, seguindo seus passos, registrando todos os seus movimento, tirando fotografias dos mesmos prédios dos mesmos ângulos que ele.
Mas assim como essa obsessão começou, ela acaba. Sophie então quer saber como é ser seguida, como é estar do outro lado. Com a ajuda de sua mãe ela contrata um detetive particular para segui lá , ao mesmo tempo em que é seguida, tendo todos os seus passos registrados Sophie escreve sobre seu dia com detalhes em seu diário, e no final compara suas anotações com as do detetive.






Eu decidi fazer o re-enactment da idéia inicial de Sophie. Seguir estranhos escolhidos aleatoriamente nas ruas do Rio de Janeiro para ver aonde eles me levariam, para viver um pouco de suas vidas. Assim que defini o que fazer, comecei a traçar um plano e meus limites, para ter uma base de trabalho. Determinei que :

Escolheria pessoas aleatórias baseando-me simplesmente no ímpeto de seguir.

Meus limites seriam, a pessoa entrar em qualquer meio de transporte, ônibus, trem, metro, taxis, carros, para mim essa pessoa seria considerada ’perdida’.

Não entraria em nenhum prédio, meu campo de observação se limitaria as ruas.

Influenciada pelo vídeo documentário “Contacts” decidi fazer todas as fotos em preto e branco e em filme, para que meu resultado final também fosse um contato.

Tracei um plano básico de onde partiria em cada saída :

Começaria a série de perseguições em um lugar calmo em que a presença de uma maquina fotográfica não causaria estranhamento.

O Primeiro e mais óbvio local, foi o bairro da Urca, no primeiro dia segui 2 pessoas e perdi 1 hora.
Percebi que sendo discreta e fazendo “cara de paisagem” no caso de alguém ficar encarando era a abordagem perfeita.

Passei a criar uma técnica de perseguição. Seguir de longe, do outro lado da rua. Achar um alvo, andar na frente do meu alvo, perto o suficiente para que meu alvo me visse “fotografar a paisagem” então deixava que o alvo passasse e o fotografava.

Ninguém desconfiava abertamente de mim, se meu alvo demonstrasse qualquer sinal de desconforto eu de algum jeito fazia com que ele relaxasse e sua desconfiança cessasse.

Comecei a criar tácticas de evasão, se meu alvo olhasse para trás mais de uma vez, se fosse possível eu estimava sua rota e tomava outro caminho, muitas vezes acelerando o passo para que chegasse antes e meu alvo pudesse ver que eu obviamente não o estava seguindo, nossa presença no mesmo lugar era somente uma coincidência. Algumas vezes essa táctica funcionava, outras vezes eu simplesmente perdia meu alvo devido a algum erro de calculo.


No começo era tudo muito interessante, seguir desconhecidos, criar técnicas de perseguição, era tudo novo e emocionante, todas as possíveis desculpas que me pegava inventado no caso de ser abordada e questionada, tudo aquilo fazia com que a experiência fosse até prazerosa.

Isso durou duas saídas.

Depois de passada a excitação do novo comecei a pensar como era fácil seguir, e como era fácil não perceber que se estava sendo seguido.
Comecei a ficar um pouco paranóica, especialmente após um dia em que passei aproximadamente uma hora seguindo um alvo até ele entrar em um prédio, e no final da tarde o mesmo homem estava sentado em um banco no caminho que tomo para ir para casa. Fazia sentido o homem estar sentado ali já que provavelmente morava por perto, mais na hora meu coração acelerou e eu suei frio pensando que aquele homem que eu seguira estava agora atrás de mim.

Depois deste momento as coisas começaram a piorar.


Eu não tinha a mesma motivação que Sophie Calle tinha quando surgiu a idéia de seguir estranhos, então aos poucos fui ficando desesperada, os comentários que eu escrevia sobre as pessoas que seguia passaram a ser maldosos, denegrindo sua imagem, era tudo o que eu conseguia pensar pois eu estava com raiva dessas pessoas. Porque, a partir do momento que eu decidia seguir uma pessoa, essa pessoa se tornava dona do meu tempo, da minha paciência, da minha vida e minhas escolhas. Eu estava a mercê delas até o momento em que elas cruzavam alguma das premissas que previamente estabeleci.

Eu simplesmente forçava a mim mesma a continuar seguindo. Mas eu não queria mais aquilo. Ao contrario de Sophie, que tomava para si as experiências de seus alvos, eu era subjugada por elas. Eu que tinha tantas coisas pra fazer, minha vida para viver, era forçada a andar por horas, até minhas pernas doerem e ter que admitir que tinha que parar. As horas em que andava sem saber meu destino final, eu sentia que minha vida não era mais minha, eu não tinha escolha, não tinha controle.


Na minha ultima saída semana passada andei por seis horas seguindo pessoas no centro do Rio, o limite que havia imposto a mim mesma - terminar um filme de 36 poses - havia finalmente acabado, o alivio foi incrível, senti minha vida voltando a ser minha.

Isto é, até a manhã seguinte quando recebi uma ligação do laboratório avisando que meu filme havia se perdido completamente.
Só conseguia pensar em todas as horas perdidas.

A experiência vai ficar comigo para sempre, mais eu não tinha mais registro, inaceitável, eu pensei.

E após controlar minha risada desesperada peguei minha maquina digital e voltei as ruas.

A sensação era diferente. O imediatismo da fotografia digital aliviava minha frustração com as perseguições.

Essas fotografias não tem o mesmo peso negativo que toda minha ansiedade passava para a maquina analógica e para as fotos perdidas. Elas são mais leves, pode-se dizer.

Essas são as fotos que coloco aqui.

Não quero escrever nada sobre elas porque em sua maioria não tenho nada de bom para dizer sobre as pessoas que segui, elas tomavam meu tempo e eu me sentia vulnerável então não quero extravasar minhas frustrações em comentários. A única culpada sou eu. Já que comecei isso, essas pessoas são completamente inocentes, estavam somente vivendo suas vidas no momento em que eu aleatoriamente decido fazer parte delas.

Varias coisas não esquecerei, uma delas foi o dia em que ao fotografar um alvo ele se vira surpreso com o barulho da maquina e se aproxima de mim, pedindo desculpas por ter entrado na frente da minha foto, eu tive vontade de falar que ele era minha foto, mais fiquei tão desconcertada que perdi completamente meu centro e não expressei reação alguma alem de um sorriso sem graça que ele tomou como um gesto de aceitação a suas desculpas ele se foi e eu não consegui mais segui-lo.

Termino meu relato com a ultima foto e minha favorita, um dos poucos alvos que gostei de seguir, não me importei de dar todo o meu tempo e lembro com um sorriso no rosto das duas horas em que a segui com os olhos e com minha câmera.

Giveaway

Giveaway

Em busca de uma performance inspiradora para fazer um re-enactment, comecei uma pesquisa por artistas, até que cheguei a Allan Kaprow, artista que originou a expressão happening. Fiquei extremamente interessada pelo trabalho que começara a desenvolver no final da década de 50, e seu papel como um dos pioneiros na arte performática. O trabalho de Kaprow consiste, em parte, na criação de espaços, com materiais que despertem memórias ou ligações com o quotidiano, produzindo um contexto novo de sentidos onde o espectador é integrado. Ele opera sobre um leque de materiais muito variado, como elementos até então exteriores à arte tais como plásticos, roupas, brinquedos, fotografias, etc. Kaprow entende estes elementos extraídos do quotidiano, do contexto urbano, como materiais que constituem a subjetividade da própria obra de arte.


O método utilizado por Kaprow para organizar e selecionar esses materiais deriva de operações de acaso, ou seja, ele tira partido de procedimentos aleatórios como uma forma de questionar e perturbar padrões de composição convencionais. O próprio espaço físico onde se realizam seus trabalhos são lugares do quotidiano: a rua, a natureza ou espaços não-convencionais.


“A Happening is an assemblage of events performed or perceived in more than one

time and place. Its material environments may be constructed, taken over directly from what is available, or altered slightly; just as its activities may be invented or commonplace. A Happening, unlike a stage play, may occur at a supermarket, driving along a highway, under a pile of rags, and in a friend’s kitchen, either at once or sequentially. If sequentially, time may extend to more than a year. The Happening is performed according to plan but without rehearsal, audience, or repetition. It is art but seems closer to life.”


Giveaway de Kaprow: Pratos deixados na rua; Fotografados; Retorno no dia seguinte; Fotografar. A simplicidade e a sutileza desse trabalho me deixaram impressionada. Num primeiro momento veio a questão: Qual é o significado de um prato no meio da no meio do meu trajeto, em um lugar completamente inusitado? Poderia mudar o meu olhar em relação ao espaço pelo qual eu passo diariamente, mudaria a minha rotina. E os outros transeuntes? Incomodariam-se? Esboçariam eles alguma reação? Traria a eles alguma questão? Então eu decidi fazê-lo, com a mesma poética de Kaprow ,mas,no entanto, dentro do meu cotidiano, no meu itinerário de casa à Unirio.


Primeiro dia. Não haviam lugares pré-determinados para a colocação dos pratos, apenas o caminho. O primeiro prato foi colocado no chão, no meio de uma calçada pequena. Comecei a experimentar alguns lugares que não tinha o costume de sequer olhar, mas que naquele momento pareciam interessantes. Posso dizer então que a proposta já estava funcionando, em mim. Quando estava me aproximando do ponto de ônibus, ainda no meu bairro, comecei a perceber que haviam algumas pessoas paradas, esperando para ver o que eu faria, onde colocaria o próximo prato. O curioso é que eu não havia imaginado que a ação de colocar pratos no espaço urbano traria curiosos. Chegando em Botafogo, continuei a colocá-los até a Unirio. No dia seguinte, fazendo o mesmo percurso, não fora encontrado nenhum prato no mesmo lugar. Todos os pratos desapareceram, com a exceção de um, que fora jogado dentro de um canteiro. Objetivo alcançado: Se os pratos não estavam no mesmo lugar, alguém tirou.


A performance Giveway de Kaprow, que acontecera no ano de 1969, nos EUA, se afasta visivelmente de sua reconstrução no Rio de Janeiro, Brasil. A diferença de época, de clima, de sociedade e cultura, geram resultados múltiplos. “A atividade artística constitui não uma essência imutável, mas um jogo cujas formas, modalidades e funções evoluem conforme as épocas e os contextos sociais”(Bourriaud, 2009).


O que estava em questão para Kaprow, era a função da arte na sociedade, e o conceito de arte em si, considerando-a viável ao nível da participação empenhada do espectador e da experiência vivida. Os materiais do quotidiano e a experiência são, para Kaprow, o caminho pelo qual a arte seria integrada na vida comum. Na verdade, o que Kaprow inteligentemente constrói é uma estratégia de indefinição: indefinição entre o que é arte e o que é vida, entre o que é um artista e o que não é.


A partir dos anos noventa, esse desejo de ampliar os limites da arte não está mais em voga. Hoje, a arte forma essas “relações de convívio” dentro de uma nova problemática, onde testa-se sua capacidade de resistência dentro de uma sociedade globalizada. “Assim, a partir de um mesmo conjunto de praticas, vemos surgir duas problemáticas totalmente diversas: ontem,a insistência sobra as relações internas do mundo artístico[...]; hoje, a ênfase sobre as relações externas numa cultura eclética [...]”(Bourriaud, 2009)). Dessa forma, o fato de deixar pratos em lugares aleatórios em 1969 era algo extremamente questionador, e reinvindicava um novo papel para a arte, enquanto que hoje, Giveaway perdeu seu papel transformador.



Bibliografia

BOURRIAUD, Nicolas. "Estética relacional". Trad. Denise Bohman. São Paulo, Martins Fontes, 2009.