domingo, 13 de junho de 2010

re-enactment : Tiravanija

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Rirkrit Tiravanija obteve destaque na crítica de arte com suas exposições em Nova York onde servia comida tailandesa para os visitantes da galeria. Num primeiro momento ( Sem título, 1989. Nova York) a sua obra consistia no preparo dos pratos carregados de curry, preenchendo toda a galeria de arte com o cheiro forte do prato.Num segundo momento(Sem título, 1992. Nova York) já numa outra apresentação, os visitantes da galeria foram convidados para experimentar o prato, fazendo dessa a exibição da obra.

Como ponto de partida para o re-nactment, duas obras do artista foram utilizadas,além da exibição do curry coletivo, outra performance do artista – Sem título, 1993(1271). Veneza – serviu como modelo. Nessa segunda performance o artista tinha como peça central uma canoa de alumínio com dois potes cheios de água fervida e vários potes de Cup’ O Noodles. As pessoas utilizavam a água fervida para preparar o macarrão instantâneo. A apresentação durou enquanto ainda havia macarrão dentro da canoa de alumínio.

The Valentine’s dinner – título provisório que dei para o re-nactment – partiu dessas duas performances do Tiravanija. Diferente dos jantares coletivos do artista, a performance que iria propor na rua se daria somente entre duas pessoas ( eu e a pessoa abordada) e só poderia acontecer somente um único dia, no dia dos namorados. Uma mesa montada e duas cadeiras, guardanapos, talheres descartáveis e alguns sabores de Cup Noodles. Ao abordar as pessoas na rua perguntava se elas poderiam jantar comigo, não iria durar mais do que três minutos ( tempo necessário para o macarrão instantâneo ficar pronto). Perguntava para elas se elas tinham compromisso para aquele dia, se elas tinham namorado(a) e se elas estariam dispostas a sentar comigo e comer o jantar que me dispus a fazer para esse dia. Até então eu não iria dizer qual seria o menu da noite e só iria informar ao se aproximar da mesa e apresentar o cinco sabores do macarrão instantâneo.

Realizei a performance na praça José de Alencar, esquina com a rua São Salvador no Flamengo. Perto de uma Floricultura, num lugar de passagem entre duas estações de metrô. De todas as pessoas abordadas somente uma perguntou o que tinha para comer e não se interessou, dizendo ter pressa de chegar em casa. Poucas deram atenção para o que eu tinha para falar, somente uma me desejou sorte e um feliz dia dos namorados, e a maioria não quis nem ouvir o que eu queria dizer. No final tive que sentar sozinho para comer. Convidando amigos que estavam tentando registrar a performance.

Num primeiro momento pensei em fazer um jantar bem elaborado. Uma massa, vinho, flores na mesa, alguém para servir. Mas logo depois desisti da idéia lendo um pequeno relato da performance do artista na Bienal de Veneza. O macarrão instantâneo remeteria a outras questões que poderiam ser muito mais interessantes e muito mais conceitual, do que esse jantar todo trabalhado. Precisando de três minutos para fazer, o macarrão rapidamente é consumido.

Cada vez mais sem tempo, o preparo rápido da comida enlatada abre espaço no tempo para o consumo de outras coisas no mundo cada vez mais cheio de informação, talvez cada vez mais curto justamente por essa quantidade de informação. Pensei em trazer essa falta de tempo através do consumo da comida, opondo justamente o tempo de preparo, o tempo de consumo, o tempo perdido. E fazendo uma leitura através da crítica de Tiravanija sobre a globalização. O artista elabora uma série de pressupostos onde critica a idéia de globalização, a partir da fome que assola o mundo e dos subsídios agrícolas por parte principalmente dos Estados Unidos, protegendo seu mercado interno e prejudicando nações em desenvolvimento.

Guardada as devidas diferenças, entre a crítica antiglobalização de Tiravanija e a minha performance, pensei nela como sendo um possível desdobramento dessa crítica, como um dos corolários dessa globalização, que mais afasta o outro, que, segundo o artista, “ a globalização não funciona realmente porque é apenas uma pele, uma camada que dá o direito de não entender o outro ainda mais.”

Ao abordar as pessoas na rua é possível perceber o outro, suas diferenças, sua recusa ou sua aceitação. Isso em qualquer outro tipo de performance realizada. Esse afastamento se dá a partir da noção da perda e da utilização do tempo de forma consciente para amenizar essa perda.

Pensei em preparar um jantar. Ferver a água.Despejar a massa. Preparar o molho. Nada de comprar esses prontos. Um bom molho pesto é feito em pilão, manual, até as folhas do manjericão ficarem bem picadinhas. Mais simples o macarrão instantâneo, para uma vida onde tudo precisa ser também instantânea.




Um comentário:

  1. Trabalho muito interessante que se inseriu no contexto pessoal, sociológico (os imperativos ligados ao Dia dos Namorados, a questao da instantaneidade...) e teceu uma reflexao muito interessante com essas questoes. A situaçao de convivência foi estimulada, porém nao se criou - se tal é realmente o objetivo, talvez seria bom mudar o cardápio... :o)

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